Uma placa chama atenção em São Gonçalo nos últimos dias;

O Brasil tem uma legislação própria que impacta a nossa realidade aqui em São Gonçalo. Temos a Constituição Federal, a a Constituição do Estado do Rio de Janeiro e a Lei Orgânica do Município de São Gonçalo. Na área do Meio Ambiente, por exemplo, jogar lixo na rua é considerado uma contravenção penal prevista no artigo 54 da Lei 9.605/98 que aplica pena de reclusão de 1 a 4 anos e multa.

A legislação para o meio ambiente e para qualquer outra área no Brasil é bem complexa (e até eficiente no papel), mas longe de ser cumprida e fiscalizada como deveria. Tem até uma frase engraçada que é “essa lei não pegou” como se lei fosse para ser avaliada para ser cumprida ou não. Risos.

É na ausência do Poder Público que o poder paralelo cresce. Essas placas, por mais impactantes que sejam, são respostas do crime organizado pela falta de políticas públicas da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Secretaria Estadual de Meio Ambiente, INEA e Ministério do Meio Ambiente. A placa contêm crime, é grave, mas não espero que o poder paralelo trate isso dentro da lei, não é?

Eu não fico chocado pois desde a década de 90 que São Gonçalo tem esse vácuo ocupado pelo crime organizado. O remédio que o tráfico compra para alguns moradores é pela falta de funcionamento do Sistema de Saúde do Município. A escola que o tráfico paga para alguns moradores é pela falta de funcionamento do Sistema de Educação e agora a placa de punição para o lixo jogado na rua é pela falta de funcionamento dos órgãos ambientais.

O que me choca é uma cidade com mais de um milhão de habitantes não ter uma política séria para dar solução nos resíduos produzidos aqui. Da Prefeitura espero respostas, do Governo do Estado espero respostas, do Governo Federal espero respostas, mas do poder paralelo não.

São Gonçalo tem sido uma cidade com mais poder paralelo que público e o caminho é quase irreversível. Uma placa escrita “Área reservada. Proibido jogar lixo. Ordem do CV. Lixo no chão, tiro na mão” é um sintoma do quanto a maioria dos nossos parlamentares, prefeitos, governadores e presidentes foram ineficientes na construção de políticas públicas em cidades como a nossa.

De qualquer forma, cuidado ao jogar lixo no chão, seja para as leis oficiais ou paralelas.

O Sargento da Polícia Militar Max Freitas morreu tentando impedir um assalto no São Gonçalo Shopping. Um bandido anunciou assalto nas Casas Bahia e quando o policial foi reagir, um segundo criminoso atirou nas suas costas.

Compartilhei essa semana o número de ocorrências em São Gonçalo para todo tipo de crime. Você pode ler essa publicação aqui voltando nos meus textos ou clicando aqui. É um número assustador de uma cidade largada e totalmente negligenciada em relação aos investimentos públicos nas áreas de segurança.

Fico me perguntando quem cuida do psicológico dos policiais (dos honestos, corretos)? Fazemos cobranças (justas) em relação ao trabalho de muitos batalhões, mas precisamos compreender a profundidade do trauma psicológico que esses profissionais estão passando durante o trabalho.

Se eu tiver problema no meu trabalho, vou ter um computador queimado, uma câmera quebrada, um excesso na conta de luz. Um policial não, um policial usa seu corpo para confrontos letais cotidianamente no Rio de Janeiro. Quem cuida deles?

Existe uma diferença entre policial e polícia. A polícia que é uma instituição de segurança tem todos os erros do mundo. Não dá conta da atenção correta dos policiais, não dá conta da remuneração adequada para os policiais, não dá conta dos equipamentos necessários para os policiais trabalharem. Já o policial é o profissional da ponta que sofre com sua falta de estrutura somada a falta de investimentos na segurança pública do estado.

339 agentes sofreram algum tipo de lesão durante seus turnos de trabalho em 2019. A Comissão de Análise da Vitimização Policial concluiu que a PM gastou mais de 43 milhões de reais com agentes feridos em 2017. Esses números são absurdos e mostram o quanto nós, enquanto sociedade, também estamos destruindo a vida dos policiais cariocas.

É preciso cobrar os casos de crime cometidos por policiais militares. É preciso cobrar os exageros e as mortes criminosas que acontecem no Rio de Janeiro por parte dos policiais, mas é preciso lembrar sempre que os policiais (pessoas, cpf’s) também são vítimas desse sistema que optou pelo confronto ao invés da inteligência que é a segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.

Os alagamentos em São Gonçalo estão cada vez mais comuns. A falta de políticas públicas para o setor e a negligência dos poderes faz nossa cidade ser uma receita pronta para o caos em momentos de chuva. Escrevi um texto sobre isso semanas atrás ( caso queira ler, acesse esse link ).

Chuva após chuva, destaco aqui a atuação dos Bombeiros Militares Gonçalenses. Mesmo sem as estruturas necessárias, mesmo com um efetivo muito abaixo do necessário para uma cidade como a nossa, é muito importante agradecer a atuação desses guerreiros nesses momentos em que a cidade vira um caos.

A Geografia de São Gonçalo, nessa situação de alagamento, não ajuda. A limitação de usos de carros em algumas áreas como Ipuca e Salgueiro, por exemplo, atrapalha bastante o trabalho dos bombeiros e a alternativa é o uso de barcos que não possuem a mesma capacidade que um caminhão, pick-up, SVU.

Nossa rede de proteção é frágil. Apesar do sistema de avisos da Defesa Civil funcionar relativamente bem, não adianta muito por conta da resposta dos outros órgãos não ser eficiente. Não temos abrigos organizados com velocidade, não temos equipamentos necessários para resgate e o conjunto da obra é que o voluntariado comunitário vira a principal política pública da cidade durante os alagamentos.

Temos alternativas para reduzir os impactos das chuvas?

Sim, temos. Existem pesquisas sendo desenvolvidas nas Universidades por pessoas preocupadas com isso como é o caso da Lúryann Guimarães que está pesquisando parques inundáveis e a pesquisa dela é para resolver o problema de alagamento no Vila Lage. Existem os recursos do Termo de Ajustamento de Conduta que a Petrobrás precisa pagar para São Gonçalo por conta dos impactos do COMPERJ que poderiam ser usados para esse tipo de infraestrutura.

Temos as regras do Plano Diretor que é uma bússola do desenvolvimento do Município e que foi deixado de lado pelo poder legislativo (para fiscalizar) e executivo (para executar). Temos a cartilha da Agenda 21 que foi produzida por muitos pesquisadores que também fala sobre os alagamentos. Temos os Planos Municipais e Estaduais que descrevem caminhos para reduzir esses impactos em médio e longo prazo, etc.

E é isso. Enquanto não temos as soluções sendo executadas, ficam os parabéns para os bombeiros.

O título é apenas um exagero para discutir os nossos números na área da segurança. São absurdos, tristes e sem nenhuma expectativa de melhora significativa para que não seja mais uma prioridade no nosso dia a dia. A sensação de segurança já não é das melhores, mas vou piorar, vou apresentar alguns dados de 2019 para que possamos saber a profundidade do problema.

2019 foi o ano que São Gonçalo teve 244 homicídios dolosos, ou seja, 244 pessoas mortas intencionalmente, foram 14 latrocínios que é o roubo seguido de assassinato, foram 199 homicídios por intervenção policial, 458 mortes por letalidade violenta, 263 tentativas de homicídio,

Calma, deixa eu respirar.

2496 lesões corporais dolosas, 241 estupros, 130 homicídios dolosos, 1378 lesões corporais culposas, 381 roubos de comércio, 51 roubos de residência, 4402 roubos de veículos, 1300 roubos de cargas, 7682 roubos de transeuntes, 1031 roubos em ônibus, 1 roubo em banco, 2 roubos de caixa eletrônicos, 1609 roubos de celular, 3 roubos de bicicleta, 2505 outros roubos …

Espera só mais um pouco.

… 1033 furtos de veículos, 720 furtos de transeuntes, 173 furtos em coletivos, 298 furtos de celular, 23 furtos de bicicleta, 70 extorções, 5 sequestros relâmpagos, 1164 estelionatos, 547 apreensões de drogas, 475 registros de tráficos de drogas, 2243 ameaças, entre outros vários casos registrados e não registrados.

Não sei dos dados do Irã, do Afeganistão ou de qualquer outro país com conflitos médios ou graves, mas acredito que a chance de você estar numa área atacada por mísseis deve ser bem menor que a chance de participar de algumas das ocorrências gonçalenses.

Galera, a perspectiva é péssima. Quem fica vendendo que vai resolver o problema de segurança rapidamente está mandando uma grande mentira. A gente brinca com o Irã, com as guerras no oriente médio, mas a galera do Irã, quando viaja pra São Gonçalo, deve ter cuidado redobrado.

Todos os dados foram tirados do Instituto de Segurança Pública.

No dia 11 de agosto de 2011, a juíza Patrícia Acioli era assassinada. Chegou em sua residência e foi morta por dois homens. O assassinato virou pauta nacional e internacional. Na época, o então presidente do STF Cezar Peluso, apontava esse ataque como algo muito grave para a democracia, para o governo brasileiro e para o país.

7 anos depois, Marielle Franco é assassinada com 4 tiros no Centro do Rio. Ela que foi a quinta vereadora mais votada da capital e que tinha um trabalho importante combatendo a redução de desigualdades na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, relembrou o poder que o crime político organizado tem no nosso Estado.

Não importa de onde saiam os votos de Marielle, se eram da Zona Sul ou da Favela. Marielle conseguiu acessar e disputar a política institucional mesmo com um sistema que exclui pessoas das favelas e territórios populares desses espaços. Foi bolsista da PUC, fez mestrado, virou vereadora e através do seu mandato representou milhares de pessoas (mais de 45 mil votos) que viam nela uma oportunidade de qualificar a discussão política na capital.

Com todo respeito aos outros parlamentares, mas Marielle  Franco não nasce todo dia, não ganha eleição todo dia e o assassinato que cometeram contra ela não é só um assassinato contra uma pessoa, mas sim a todas as pessoas que acreditam na política como uma ferramenta importante na redução de desigualdades.

 

Esclarecer a morte de Marielle não é só uma questão de justiça, é uma questão de garantir a manutenção dos direitos das pessoas, de garantir o acesso às pessoas de origem popular nesses espaços de justiça e principalmente de punir mais um grupo criminoso que toma conta da política carioca.

Matéria produzida pelo Jornal o Fluminense em 19/02/2018. 

Começou no final da tarde desta segunda-feira (19) a operação nas divisas do Estado e em áreas consideradas estratégicas pelas forças de segurança, na Região Metropolitana do Rio. As Forças Armadas estabeleceram pontos de bloqueio, controle e fiscalização de vias urbanas nos acessos rodoviários ao Estado do Rio, na BR-101, divisas ao norte e ao sul do Estado.

Segundo a Secretaria de Estado de Segurança, em São Gonçalo, homens das Forças Armadas atuaram inclusive em áreas próximas da comunidade do Salgueiro e no bairro do Jardim Catarina; na BR-116, nas divisas nordeste e ao sul do Estado, além de trechos da Baixada Fluminense; e na BR-040, nas divisas a oeste do Estado. Além desses locais, realizam patrulhamento ao longo do Arco Metropolitano.

Estão disponíveis para as operações três mil militares das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica), com apoio de veículos blindados e aeronaves.

Algumas vias e acessos nas áreas de operações podem ser interditados e setores do espaço aéreo poderão ser controlados, oportunamente, com restrições dinâmicas para aeronaves civis. Não há interferência nas operações dos aeroportos.

Ainda segundo a pasta, as instituições envolvidas nas operações estão acompanhando e orientando, em tempo integral, os desdobramentos no Comando Militar do Leste.

Intervenção federal é quando o Governo Federal quebra a autonomia do Governo Estadual e passa a comandar determinado órgão. No caso do Rio, a quebra é parcial e o Governo Federal, mas exatamente o General Walter Braga Netto, Integrante do Comando Militar do Leste, passa a comandar todas as operações das polícias comandadas pelo Estado.

Pois bem.

O Estado do Rio de Janeiro está um caos. Graves problemas políticos e uma insegurança absurda projetada nos assaltos, assassinatos, confrontos e mortes de policiais e inocentes. O Governador Pezão assume publicamente que não sabe mais o que fazer em relação ao tema e terceiriza as responsabilidades para o Governo Federal. Na teoria o projeto de intervenção é perfeito, mas na prática irá aumentar o número de militares no Estado do Rio de Janeiro através do exército, aeronáutica e marinha com um maior foco na capital Rio de Janeiro.

Lembro da instalação das UPP’s, lembro da Copa do Mundo e lembro das Olimpíadas. Apesar de toda a narrativa de um “projeto político” de redução do crime organizado, a falta de inteligência para prender os bandidos gerou uma migração da violência para municípios como São Gonçalo, Itaboraí e outros da região. Hoje não será diferente. A Intervenção Federal, apesar de teoricamente fazer sentido, ignora o fato de que o Estado do Rio de Janeiro vai além da Zona Sul e da cidade do Rio de Janeiro.

Não precisa ser muito inteligente pra perceber que a violência cresceu nos municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro a reboque da falta de policiamento, inteligência e outras políticas públicas na região. A culpa não é dos policiais, a culpa não é da população. A culpa é do Governo do Estado e dos responsáveis pela ampliação do confronto em territórios hostis em detrimento de uma política de médio prazo de inteligência para prender criminosos.

O confronto é necessário? Lógico que sim. Mas o confronto é um dos sintomas de uma falta de planejamento de décadas nessa área. Isso piora para a nossa cidade, gera um desconforto ainda maior pois a maioria da população já está vulnerável, uma polícia local que já não tem estrutura e nem efetivo para dar conta e de um “plano de intervenção” que não leva em consideração que o ESTADO DO RIO DE JANEIRO não é apenas o eixo Barra da Tijuca, Zona Sul e Centro.

Enquanto cidade, enquanto região precisamos incluir nossas demandas nesses “pacotes” de cima pra baixo produzidos por Ministros, Senadores, Deputados e Secretários Estaduais que NUNCA pisaram em São Gonçalo pra conversar com consistência com a gente. A visão “riocentrista” de que as políticas federais precisam ser iniciadas e focadas na capital, geram, de maneira geral, uma anomalia escrota de não pensar o Estado como Estado e sim como um amontoado de cidades que alimentam uma capital também em crise.

Não vi o plano. Posso estar errado e torço para estar errado. Fui assaltado duas vezes em uma semana esse mês e sou vítima dessa falta de políticas públicas de segurança, mas não dá para acreditar que simplesmente mudar o comando de uma polícia sem estrutura, sem carros, sem armas, sem boas remunerações e colocando o exército em vias principais vá resolver o problema.

É preciso prender. É preciso treinar e melhorar a qualidade da polícia que também sofre com isso. É preciso eleger gente que não assuma e no meio do mandato fale que “não sabe mais o que fazer”.

Já escrevi isso em outras oportunidades, mas parece que a Segurança Pública passou a ser a principal questão da cidade. A falta dela tem prejudicado a saúde e entretenimento das pessoas que não saem mais de casa, tem prejudicado a educação da cidade por conta de conflitos dentro e fora dos ambientes educacionais e tem feito os gonçalenses se apequenarem.

Viramos seres desejantes, porem pequenos. Cheios de desejos de viver, mas ao mesmo tempo cheios de traumas por conta de ter sido, ter visto ou ter escutado alguma história pesada sobre a violência de um assalto.

Lembro, em tom saudosista, da minha infância em que o assalto só acontecia à partir das 21h da noite. Aos poucos, São Gonçalo virou arena de conflitos entre facções, milícias e pessoas que de maneira autônoma entraram nesse ringue seja por falta de investimentos nas áreas como educação e cultura, seja pela migração da violência por conta instalação das UPP’s nas favelas cariocas, etc.

Sei que será um texto relativamente grande e que no final das contas, as pessoas vão reduzir tudo ao “mata ou não mata” o bandido. Isso também é reflexo desse momento de total insegurança e total opressão por parte do poder paralelo e por conta do Estado não dar conta do mínimo.

Tudo começou quando alguém não começou.

A complexa geografia desse grande território se transformou em parte do problema de segurança. O segundo distrito (Santa Isabel, Maria Paula, Almerinda, etc) que tem uma vocação para agricultura foi deixada de lado ao longo dos anos. Poucas linhas de ônibus, conflitos por conta da mobilidade urbana (vans x ônibus), pouca atuação dos órgãos públicos de execução e fiscalização.

Já o quarto distrito foi deixado de lado depois que Neves passo a ser quase irrelevante economicamente para a cidade. Neves, que um dia foi o vetor econômico num período que São Gonçalo era chamada de Manchester Fluminense, passou a ser um espaço em ruínas, com grandes terrenos vazios, proximidade com o Rio de Janeiro e Niterói, saída para a Br e nenhuma revitalização arquitetônica e urbana. Resultado disso é um região com muitos terrenos largados, muitas saídas e lugares para fuga, proximidade com muitas vias, etc.

O primeiro, terceiro e quinto distrito que possuem características parecidas em relação ao volume populacional já sofrem mais com a infra das regiões. O primeiro distrito se diferencia por ter muitos bairros de “classe média” como Trindade e Zé Garoto, mas mesmo assim o volume populacional dentro de um processo desordenado de crescimento gera um ambiente propício para a criação dessas violências.

Sérgio Cabral, UPP’s e a migração da violência.

Outro fato contemporâneo para o aumento da violência é a implementação das UPP’s no Rio de Janeiro. O projeto de ocupação entrou nas favelas cariocas, mas não efetuou um volume necessário de prisões, logo, traficantes e outros criminosos saíram das favelas e se instalaram em municípios como Niterói, São Gonçalo e outros da Região dos Lagos.

Assim que o programa de Ocupação ganhou visibilidade, ficou nítido a diferença do poder paralelo na cidade. O tipo de roupa, de gírias, de atuação eram diferentes. A “relação” desses grupos com os conhecidos “moradores” também havia mudado. Muita gente de fora estava chegando e a cidade, o poder público, a polícia e os outros órgãos não estavam preparados. Assaltos pela manhã, assaltos seguidos de agressão, assaltos com uso de fuzis e outras práticas que São Gonçalo não convivia.

As UPP’s já estão quase no fim, mas não acredito que esses “imigrantes” voltem para o Rio. Para quem viveu durante anos na lógica dos conflitos diários no Rio de Janeiro, São Gonçalo vira doce de criança. Poucos veículos de comunicação, poucos agentes disponíveis, poucos recursos, pouca infra-estrutura e poucas oportunidades fazem a nossa cidade ser um lugar ideal para o crescimento desenfreado para novos criminosos.

Tem jeito?

Não sou um profissional ou um estudioso da Segurança Pública. Tudo que estou escrevendo aqui é baseado em observação de outras cidades e de conversa com profissionais de diversas áreas e posições ideológicas. E a partir dessa escuta, minha reflexão é de que precisamos pensar a Segurança em três etapas.

A primeira etapa é entender o tipo de violência que nossa cidade tem. Temos milícia? Temos tráfico? Temos assaltos? A partir do mapa de violência, precisamos traçar os caminhos, geografia e de que maneira esses crimes são operados na cidade. Um raio-x da violência e seus caminhos são dados fundamentais pra gente fazer uma análise e o perfil que é a realidade da segurança pública da cidade.

A segunda etapa é identificar quais são nossos recursos disponíveis e qual é a nossa capacidade e nossa inteligência pra mobilizar pessoas, orçamento e ferramentas para essa solução. Temos um volume de policiais suficiente? Temos capacidade de pensar em cooperação com outros municípios? Qual é o nosso poder político pra trazer recursos para a cidade?

A terceira é o planejamento de atuação. Quais medidas a curto, médio e longo prazo temos a disposição? Quais programas e políticas públicas precisamos criar para que o crime não cresça? Quais as nossas iniciativas para o jovem não ver a arma como a sua única oportunidade de trabalho?

O problema de Segurança no Brasil e no Estado são muito graves, mas os municípios precisam mobilizar suas inteligências pra pensar nisso. Depois que fui assaltado, percebi que minha atuação na cultura é uma contribuição para a redução de crimes, não é suficiente em curto prazo.

Eu não sei exatamente o caminho, mas minha bússola é que a gente precisa falar de Segurança Pública para além do “matar ou não matar”.

 

Não te conheço e provavelmente nunca vá te conhecer. Não sei os motivos que te fizeram começar a assaltar, mas queria te contar um pouco do medo que nós temos de andar em São Gonçalo.

Várias vezes fazemos trajetos pequenos em nosso bairro e temos que colocar R$50,00 no bolso por conta do medo de não ter nada e isso se transformar num motivo agressão ou morte. Temos medo do nosso reflexo se transformar em problema pra nós.

Não sei sua história.
Não sei de onde veio.
Não sei quais motivos te fizeram começar a assaltar,

mas de qualquer forma, sei que quando você deita para dormir no meio da adrenalina de ser procurado, pensa nos outros caminhos que poderia ter escolhido. Perdi muitos amigos que estavam no crime, muitos mesmo. Gente que eu me divertia na infância e adolescência e que hoje estão presos, mortos ou foragidos.

Pensa no meu lado. Eu trabalho pra caramba para conquistar minhas coisas. Trabalho para conquistar meu celular, minha roupa, meu tênis e tenho medo de andar pela rua com esses bens por que posso perder e/ou posso sofrer algum tipo de violência física sem ter feito nada.

Só quero pegar meu ônibus e chegar no trabalho. Só quero sair as 23h de casa e comer meu x-tudo na praça em paz e não posso mais fazer isso. Não estou só te culpando, afinal, vivemos num sistema muito complexo em que várias instituições públicas estão corrompidas e que também são responsáveis por toda a violência que vivemos.

Sei que também tem a ausência de serviços de educação, saúde, cultura e assistência que fazem a violência piorar, mas será que não existe outro caminho? Será que esse universo de insegurança precisa continuar?

Ao longo de todos esses anos, já pedimos a melhoria da segurança de várias maneiras. Agora, sem mediadores, estou pedindo para você.

Pare de assaltar, por favor.

Não temos mais coragem de andar pelas ruas da nossa cidade. Não temos mais coragem de andar tranquilos. Não temos mais disposição para ficar na rua com medo de tomar um tiro, apanhar ou simplesmente ser confundido pela polícia.

Muita gente vai dizer que esse texto está defendendo bandido ou algo do tipo. Minha visão de crime não é só quem assalta e também dos grandes empresários e dos policiais que fazem parte desse sistema que inviabiliza o direito à cidade. Nessa guerra, todo mundo está perdendo, todo mundo está podendo circular menos, falar menos com as pessoas que gosta e todo mundo está perdendo as pessoas que ama.

Existem duas coisas entre todas as pessoas. A primeira é que todas as pessoas acertam e a segunda é que todas as pessoas erram. Todos nós erramos, mas ninguém é só bom ou só mal. Ninguém! Você, eu e todas as pessoas do mundo já foram MUITO legais ou MUITO escrotas com alguém. Já fizemos MUITO bem ou MUITO mal para alguém e o que nos une são nossas contradições.

E é dentro dessas contradições que eu imploro para que você deixe a nossa cidade ser mais segura e sem penalizações para as pessoas que não tem nenhuma relação com essa guerra.

Pensa numa Ak-47.

Agora pensa numa Ak-47 numa favela.

Uma Ak-47 custa 60 mil reais. R$60.000,00.

O Brasil não fabrica Ak-47, mas mesmo as armas fabricadas no Brasil não podem ser compradas numa loja de conveniência.

ou seja,

Pra uma arma chegar numa favela, é preciso uma caminhada bem longa de muitos envolvidos, participantes e sócios. Não se compra um Fuzil ou uma Pistola na OLX.

Para uma AK-47 chegar numa favela, ela precisa ser importada ilegalmente. Precisa ter alguém que traga num transporte aéreo ou pelo mar e sabemos bem que a Favela não domina o mercado náutico e nem aéreo Brasileiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguém da polícia federal ganhe um dinheiro para as cargas entrarem na fronteira brasileira e circule pelas estradas do País para chegar em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que as polícias estaduais dos Estados que essa carga passe ganhem algum dinheiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguma parte do Governo do Estado seja conivente com a chegada de armas numa favela.

Pronto. Chegou a AK-47 e jovens que não possuem nenhuma instrução estão armados com uma arma super potente. Levam a culpa por toda uma cadeia produtiva de tráfico de armas que eles nem devem compreender.

E vai além.

Quando tem uma troca de tiro na favela ou na rua, a culpa não é apenas de quem está com a arma na mão, mas sim de TODA A CADEIA PRODUTIVA que fez a arma chegar na mão daquela pessoa. É tanto culpa de quem dá o tiro até a culpa de quem transporta a munição pelo mar ou aceita o arrego na Blitz numa dessas Br’s ai pelo Brasil.

E não tem só o “bandido atirador” não.

Tem Deputado.
Tem Governador.
Tem a Empresa de Armas.

Tem um monte de gente que “não deve ser citado”.

Um tiro é uma Genki Dama de gente envolvida. Seja você a favor do Estatuto do Desarmamento ou não, seja você a favor de Bandido Bom é bandido Morto ou não, é preciso saber que.

UMA
ARMA
NA
RUA
TEM
DEZENAS
DE
ENVOLVIDOS

Se bandido bom é bandido morto, sua lista precisa aumentar inclusive para os donos das empresas fabricantes de armas que lucram milhares de dólares e reais com essas armas vendidas informalmente.

O policial é o menor responsável dessa cadeia produtiva assim como o bandido que troca tiros de havaianas na favela não sabe de 5% daquilo que está envolvido.

Os culpados são outros e a gente insiste em resumir tudo na Wagner Montesrização de o único culpado é quem atira.

Geral é culpado. Entre quem dá o tiro e quem fabrica a arma, existe tanta gente envolvida que nem The Walking Dead daria conta de criar tanto personagem.