Domingo, final de tarde e os ônibus estariam passando pela Paul Leroux. Os camelôs estariam colocando gelo para a cerveja, refrigerante e cantina da serra. Os fogos começariam a estourar e eu saberia que era hora do bom e velho sambão.

Junto com a decadência da Porto da Pedra por faltas de investimentos públicos e privados, um dos eventos mais importantes da cidade também miou. De Novembro até o carnaval, domingo era dia de se divertir no inferninho localizado entre a mangueira e o paraíso.

O mais legal era a democracia da festa. Na Praça dos Ex-Combatentes as famílias ficam perto do tanque para curtir os brinquedos, uma galera curtindo outras coisas atrás do tanque, os esfomeados no meio da praça, os cachaceiros na frente da UERJ, os funkeiros ficam depois da UERJ, os playboys na frente da Estação dos Sabores e os casais espalhados por todas as ruas paralelas possíveis.

Mesmo com o trio elétrico com um som não tão bom, mesmo com as eventuais brigas que sempre rolavam, o sambão era diversão certa. Gerava economia para quem queria vender umas bebidas, gerava diversão para quem estava sem nada para fazer, gerava uma consagrada ou consagrado para quem estava procurando, gerava briga para quem estava procurando briga, etc.

Falando em busca, já reparou como a gente fica buscando na memória relembrar das pessoas nos anos anteriores? Fico reparando quem engordou, quem emagreceu, quem cortou o cabelo, quem pintou o cabelo, quem enriqueceu, quem foi solto, quem está namorando com quem?

Não escutei as gritarias, aquele som ruim, não comi meu frango empanado e não vou relembrar de como é bom andar, andar e andar pelo ensaio do Porto da Pedra sem ter nada para fazer além de trocar ideia andando de um lado paro outro.

Sobre o desfile da Porto da Pedra – Madrugada de sexta para sábado às 00:15h.

Dias atrás o Governador Wilson Witzel anunciou o lançamento do Programa Segurança Presente em São Gonçalo. Esse é um programa fundamental para os centros urbanos das cidades. No meio do seu discurso de lançamento, ele fez a seguinte declaração em relação a Fazenda Colubandê;

São Gonçalo precisa de policiamento, precisa reforçar a estrutura dos policiais, o Estado precisa remunerar melhor os profissionais da segurança, mas nem toda questão no Estado do Rio de Janeiro e em São Gonçalo será resolvida com polícia.

O policial, por mais importante que seja numa sociedade, não pode substituir a função dos professores, artistas, médicos, assistentes sociais, engenheiros e vice-versa. Cada profissão tem seu valor e a Fazenda Colubandê é um desses lugares que precisa conciliar sua vocação (histórica, cultural e patrimonial) para não virar apenas um local que abrigue o Batalhão Florestal.

Breve histórico da Fazenda Colubandê e o contexto político.

Já publiquei um texto contando um pouco do contexto político que a Fazenda Colubandê está inserida, além disso “a Fazenda Colubandê é uma das fazendas coloniais mais importantes do Brasil. A sua história começou no século XVII quando foi comprada por Duarte Ramires de Leão e ali sua família viveu até o século de XVIII, tornando a propriedade em uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar da região” (…) “também pertencente ao conjunto se encontra a Capela de Monserrate, que depois passou a se chamar Capela de Santana, erguida originalmente para o batizado do filho de Duarte Ramires de Leão, no ano de 1618.“.

Em 2012 a Fazenda Colubandê foi abandonada pelo Governo do Estado quando retirou o Batalhão Florestal de lá. Em 2013 Pezão anuncia a construção de duas escolas, uma de ensino técnico e outra de segundo grau, e uma biblioteca no espaço. Em 2013 é criado o movimento “Fazenda Colubandê – Quem Ama Cuida“. Em 2017 André Lazaroni assume a Secretaria Estadual de Cultura e anuncia a reabertura da Fazenda através do POC (Programa de Ocupação Cultural). Em 2020 o Governador Wilson Witzel anuncia devolver o Batalhão Florestal para a Fazenda.

Witzel, não caminhe na mesma estrada que Pezão e Cabral.

O Batalhão Florestal é imprescindível para o desenvolvimento ambiental de São Gonçalo e não tenho dúvidas disso. Já existe uma unidade destacada (do 7º Batalhão) atrás da fazenda que poderia ser ampliada enquanto o casarão da Fazenda serviria como uma espécie de Biblioteca Parque, Campo de São Bento e Parque Lage para nós. Os índices de violência em São Gonçalo são absurdos, a polícia é fundamental para combater o crime do agora, mas a educação e a cultura fazem parte da prevenção do amanhã.

A fazenda não tem vocação policial e você sabe disso Witzel, não use o momento violento do Estado para se capitalizar politicamente.

Pela primeira vez na minha vida tirei férias no final do ano e fiz isso em Maricá. Andei de bicicleta quase sempre em ciclovias. Fui em Araçatiba, na Orla Zé Garoto ali no Boqueirão, em Cordeirinho e Barra de Maricá. Visitei uma obra de praça em Itapeba e aproveitei bastante a cidade. Uma coisa que me impressionou em tudo foi o uso da orla para gerar polos econômicos e espaços para encontros públicos.

Não sou um maluco como muitos são de comparar a economia, a população e a geografia de Maricá com São Gonçalo. Maricá tem mais orla que São Gonçalo, tem menos habitantes que São Gonçalo e tem muito mais dinheiro que São Gonçalo. Isso não quer dizer que a gestão de Maricá não mereça elogios, pelo contrário, merece muitos.

Grandes transformações dependem de pequenas transformações.

Nunca tive a expectativa de que São Gonçalo passaria por um processo de transformação intenso em curto prazo, mas as pequenas experiências e os exemplos pontuais podem ser feitos e teriam um impacto significativo. Veja o exemplo da orla da Praia das Pedrinhas.

Fiz um traço reto no mapa da Praia das Pedrinhas e são quase 700 metros de orla. Existem algumas construções irregulares (muito irregulares) ocupando a faixa de areia, a sujeira do chão é atualizada constantemente, os esgotos são jogados direto na água, mas temos ali uma orla com uma vista linda para a Baía de Guanabara.

Trago esse exemplo pois mesmo com todos os defeitos, a orla da Praia das Pedrinhas é muito melhor que a orla de qualquer parte das orlas da lagoa de Maricá antes dos royalties. Nossa vista é melhor, nossa infraestrutura é melhor que o passado de Maricá, nosso acesso (mesmo sendo ruim) é melhor que o passado de Maricá e nossa orla da Praia das Pedrinhas é infinitamente menor que a orla da lagoa de Maricá.

E o que fazer sem inventar a roda?

Vários prefeitos já tiveram iniciativas interessantes para a Praia das Pedrinhas que combinadas poderiam transformar aquele lugar. Se a organização fundiária da orla focando em comércios da gestão do Ezequiel fosse a frente, Se o mercado de peixe da gestão da Aparecida Panisset fosse a frente, se a internet gratuita da gestão Neílton fosse a frente, se a quadra poliesportiva financiada pela caixa da gestão Nanci for a frente já teríamos um começo.

A primeira etapa não é de tanto dinheiro, mas é de relacionamento. É aproximar o SEBRAE e a Rota Gastronômica para a Praia no sentido de melhorar a qualidade do atendimento dos bares, é conversar com o Governo Federal para abrir uma saída (100 metros de asfalto e sinalização) da Br direto para a orla na altura do Shopping (sentido Niterói), é de chamar os pescadores para saber como dinamizar o trabalho de venda de peixes e melhorar a iluminação, limpeza e sinalização da praia.

Depois disso que a gente pensa em obra, em investimento maior, mas é preciso começar por algum lugar e com o pé no chão. Começar a pensar em alternativas para não deixar carro passar nos finais de semana privilegiando o pedestre e as cadeiras para ampliar as vendas, voltar com a internet para as pessoas fazerem um check-in, postar fotos e divulgar o lugar espontaneamente podendo criar uma relação de pesquisas para acessar o wi-fi, etc. Tudo isso em médio prazo, sem pressa, mas com planejamento e cronograma.

Fica o aprendizado.

Nós precisamos saber o tamanho da nossa cidade, saber o quanto de dinheiro nós temos e entender que não teremos uma mudança rápida em qualquer área no curto prazo. São Gonçalo não é Maricá, nossa economia não é a de Maricá e temos que criar nosso projeto de cidade respeitando nosso tamanho, mas olhando as boas experiências que deram certo.

Já produzi dois textos sobre a Fazenda Colubandê. O primeiro foi sobre a importância daquele patrimônio com um breve histórico e você pode ler clicando aqui. O segundo foi sobre uma quase efetivação de um projeto de ocupação da fazenda em 2018 e você pode ler clicando aqui.

Hoje foi dia de recomeçar. Dia de reconstruir a animação e lutar novamente através do movimento Fazenda Colubandê – Quem ama cuida, mas antes de falar sobre o encontro, queria fazer um breve histórico dessa luta.

  • 2012 – A Fazenda Colubandê é abandonada com a saída do Batalhão Florestal. Artistas começam a se organizar para questionar o abandono.
  • 2013 – O Vice-Governador da época, Pezão, promete a construção de duas escolas, uma de ensino técnico e outra de segundo grau, e uma biblioteca no espaço .
  • 2014 – O movimento “Fazenda Colubandê – Quem ama cuida” é criado e realiza um Piquenique Cultural que mobilizou diversos grupos, artistas e lideranças políticas de São Gonçalo em defesa da Fazenda Colubandê.
  • 2015 – Grupos organizados continuam cobrando do Governo Estadual as medidas necessárias para a abertura da Fazenda.
  • 2016O Retábulo do século XVII da Capela Santana é roubado.
  • 2017 – André Lazaroni encaminha para a ALERJ o POC, Programa de Ocupação Cultural que daria permissão para a sociedade civil ocupar patrimônios culturais como a Fazenda Colubandê. Além disso, anuncia que ainda naquele ano a Fazenda já estaria funcionando.
  • 2018 – O movimento de Ocupação apresenta diversas vezes o projeto de ocupação sem sucesso. André Lazaroni pede exoneração da Secretaria Estadual de Cultura para disputar as eleições e o novo Secretário, Leandro Monteiro, não encaminha absolutamente nada.
  • 2019 – O Governo Witzel toma posse, nomeia Ruan Lira como Secretário Estadual de Cultura e Economia Criativa e o movimento “Fazenda Colubandê – Quem ama cuida” volta a se organizar para cobrar a reabertura, preservação e recuperação da Fazenda.

A Fazenda Colubandê é a vitória que nós precisamos para ter mais energia e ter a certeza de que as lutas estão funcionando. São quase 9 anos lutando para que esse patrimônio não seja mais um na grade de programação dos incêndios cotidianos no Brasil.

Como eu havia dito em 2017, “fico pensando nas inúmeras possibilidades que esse patrimônio pode cumprir em São Gonçalo. Eventos, Festivais, Formações, Escolas de Formação Artísticas, Casamentos, Gravações e uma ilimitada possibilidade de uso para uma cidade que ainda possui poucos investimentos em aparelhos culturais.”

Essa reunião teve desdobramentos importantes. Iremos encontrar representantes do Governo Federal na segunda feira para mobilizar o tema, encaminharemos novas cobranças para o Governo do Estado e teremos uma nova agenda para que o debate e a mobilização continue com bastante energia.

Para conhecer mais sobre a mobilização, acesse a página do movimento clicando aqui.

Passei grande parte da minha adolescência no São Gonçalo Shopping. Dei muitos beijos no cinema, no G3, na Grama e no estacionamento. Vivi amores, namoros e relações que não voltam mais e que ficaram guardadas nas paredes e nas saídas de emergência de lá.  Assisti filmes que mudaram minha vida, tirei meu primeiro cartão de loja na Leader, comi meu primeiro sanduíche do Burguer King e descobri o que era refil no Brasil nesse empreendimento. Tive minha maior briga com uma loja nesse Shopping e vivi momentos que não voltam mais. Convivi com pessoas muito divertidas por conta dos Encontros de Internet e que até hoje são meus amigos. Não era só um Shopping, era meu Shopping.

Foi amor à primeira vista. Era uma experiência inesquecível poder acessar, pela primeira vez na minha vida, um empreendimento tão grande dentro da minha cidade. Assistir um terreno vazio se transformar num Shopping foi surreal. Era uma sensação de que minha cidade estava saindo da invisibilidade econômica e virando enfim uma cidade. Na época eu tinha 14 anos e não pensava exatamente assim, mas o tempo me fez perceber que esse empreendimento inaugurou um momento de novas possibilidades para São Gonçalo.

15 anos depois, é visível que a economia não está no melhor momento. É visível que andar no São Gonçalo Shopping nem sempre cheio de hoje não é como andar no São Gonçalo Shopping sempre lotado do passado. O Brasil mudou, outros empreendimentos apareceram, a dinâmica do consumo digital ocupou parte significativa da função de um Shopping, mas anos depois ele continua apostando numa cidade que a 15 anos atrás não tinha espaço para esse tipo de aposta.

Feliz aniversário São Gonçalo Shopping. É estranho ter uma relação tão próxima com um empreendimento, mas num país confuso como o nosso, meu namoro contigo é aceitável.


20258281_1428280217219297_3545060986384320378_nVerônica Inaciola nasceu em São Gonçalo, no ano de 1963. Ela é pedagoga por formação e desenvolve um lindo trabalho sobre os povos tradicionais.  E em nosso bate-papo conseguia ver o todo amor e crença no que realiza. Dava pra sentir toda raiz brasileira, fluminese e gonçalense que há nessa mulher. 

Ela passou parte de sua vida no Laranjal, no meio de tantas Laranjeiras que diz sentir o cheiro das tangerinas até hoje. Porém, a recordação gostosa do aroma das frutas não é a única. A educadora lembra perfeitamente da forma que o seu pai, militante de esquerda durante a Ditadura Militar, contava acontecimentos da cultura popular para ela e seus irmãos. “Meu pai sempre contava  histórias à noite pra gente. Acho que a minha relação com a cultura popular começou justamente aí.

Na casa de Verônica, brasilidade não era o  que faltava. Sua família sempre fez questão de participar de folias de carnaval e festa juninas. Em 1998 iniciou contato de forma profissional com a cultura popular tradicional quando foi trabalhar na antiga Secretaria de Educação e Cultura de São Gonçalo, dando continuidade a um programa de Artes e Tradições Populares. Com esse trabalho, ela começou a levantar, através de uma pesquisa, o potencial da cidade com as festas e com os grupos que existiam na periferia.

A partir daí, retornou a universidade para aprofundar seus conhecimentos, fez uma dissertação sobre a Arte Popular Fluminense e também um livro que conta um pouco da sua preciosa caminhada e paixão com a Folia de Reis de São  Gonçalo e grupos com rituais fortíssimos , ainda com grande representação em quase todo o país .

Era o primeiro carnaval de Luiz fora do olhar dos pais. Acostumado a viver nos carnavais dos bairros, era a primeira vez que ele visitaria blocos e festas desse período. Luiz era do Francisco de Paula Achilles e participava do Grêmio Estudantil. Depois de longas férias lutando contra o fechamento da escola, enfim um respiro no carnaval. Estava descobrindo a sua adolescência e resolveu ir no Bloco das Piranhas no Mauá. Pintou o cabelo de amarelo, se vestiu de mulher, passou maquiagem e foi.

No caminho pensava na vida e em como seria encontrar os amigos pra curtir o primeiro Bloco das Piranhas do Mauá. Saindo quase do ponto final do Anaia, assistia as pessoas entrando no ônibus com garrafas de Cantina da Serra, Latões de Antártica e fantasias quase sempre muito estranhas.

Passou o SESC e ele desceu.

Andando meio sem jeito e sem localizar os amigos, ia se encantando com o universo do Carnaval. Ambulantes, homens fantasiados de mulher, mulheres fantasiadas de homens, bêbados e ele lá, parado em frente a Unimed fantasiando o primeiro momento de total liberdade no Carnaval.

Aos poucos os passos iam ganhando um gingado por conta da vodka falsificada , o bolso ia ficando mais leve por conta do furto da carteira que só repararia quando fosse voltar pra casa e a alegria ia se misturando com o suor, purpurina e fedor de mijo da frente da linha de trem.

Seus amigos continuaram caminhando e ele parou. Já não sabia mais onde estava por conta de Lorena. Até então ele não sabia seu nome, mas pelo seu olhar parecia que a paixão era antiga. Ele acabado por conta do sol e suor e ela linda com uma garrafa de Mad Dog na mão. Ele de tamanco, asa de borboleta e vestido de pantera. Ela com blusa da 1Kilo, tatuagem na coxa e cabelo black.

Sem jeito, Luiz não sabia como chegar nela. Em 20 minutos, passou 5 vezes e ela já tinha reparado e gostou. Olhares trocados até que ela parou na frente dele, gingou ao som de baile do jaca e beijou. Beijou e beijou até nenhum dos dois terem mais batom. Foi o primeiro beijo de carnaval de Luiz. Abraçados no meio da multidão e próximos do trio Sakulejo, eles iam rindo sozinhos da situação.

Luiz, sem graça, perguntava “- Qual seu nome?”. Lorena um pouco mais velha e acostumada com o Castelo das Pedras ria da vergonha dele. Lorena então se aproxima, dá o último beijo e pede pra ele anotar seu whatsapp no celular.

“- Anota aí Luiz, o número é …” . Ele anota, sorri e se despede.

Encontrando seus amigos, conta da história, do por quê sumiu e aguarda ansiosamente para chegar em casa e usar o sinal de wi-fi. Luiz chega correndo em casa e liga o celular para mandar mensagem. O whatsapp atualiza e o número de Lorena não aparece. Ele toma banho pra aguardar mais um pouco.

Enquanto isso, Lorena está no UBER com outro cara e contando pra amiga no whatsapp como foi ficar com o menino do Anaia e que passou o telefone errado por que não queria nada com ele.

E assim foi o primeiro beijo entre Lorena e Luiz. Um beijo de Carnaval.

Se você tem mais de 20 anos e menos de 35, provavelmente conheceu alguém que frequentava os encontros de internet no Shopping São Gonçalo. Todo sábado estávamos lá envolvidos com as brigas, flertes, encontros, desencontros e risadas que aquele pedaço de grama na frente do Shopping trazia para nós.

Hoje a internet é popular, mas naquela época não. Foi uma geração de transição. Nossos pontos de encontro que eram as esquinas foram virando a busca eterna por promoções numa lan house qualquer. Aos poucos, o Counter Strike ia virando ICQ e MSN. O cheiro de homens, pão velho e mortadela ia dando espaço para o cheiro do perfume das mulheres que iam fazendo os jogos em rede cada vez menos interessantes.

Bons tempos. Época de trocar lista de MSN, de pensar na melhor coloração dos nick’s do chat e escolher a melhor playerlist para aparecer no “o que você está ouvindo”. Era tempo de entrar e sair do MSN para fazer com que alguém puxasse assunto e começar o desenrolo para o sábado virar point de encontro.

Cada um com seu bonde, com seu tipo de roupa, com sua falsificação ideal da feirinha de itaipava, com os perfis I, II, II e IV do orkut lotados e alguma foto de câmera digital que não era sua ou no máximo de uma webcam de baixa resolução.

Estamos ficando velhos. O tempo está passando e cada um foi seguir seu rumo. Alguns viraram advogados, músicos, jornalistas, maconheiros, bandidos e todo mundo virou algo mesmo que alguns ofícios não sejam de dar orgulho. Foi bom compartilhar e fazer parte de uma geração que descobriu junto o potencial da internet e criou parte do seu entendimento de rede e coletividade a partir das combinações sociais que o encontros de internet proporcionava.

As vezes fico pensando do que seria da minha vida sem os encontros. Parte da minha formação, personalidade e sagacidade foi desenvolvida lá. Pensar em estratégias para ser mais popular para entrar nas festas de graça, tentar arrumar uma grana para poder comer meu Mc Donald’s aos sábados, poder ir no cinema a tarde já encaminhando a ida para a grama e tentar entrar em contato com o máximo de pessoas possíveis. Resumindo: todo mundo queria um scrapbook lotado.

Para além de um saudosismo, bate uma saudade de querer saber onde todo mundo está. Queria ver o rosto de cada um novamente e poder ouvir o que aconteceu desde então. Saber dos casais e crianças geradas através do G3, de quem brigou e depois virou amigo, de quem emagreceu, de quem engordou, de quem enriqueceu, de quem foi preso, dos puto, das puta, dos feios, dos bonitos, de todos.

Foi triste deixar de frequentar os encontros e ver sua decadência. A grama do Shopping São Gonçalo tem história, mas tanta história que sempre que passo lá preciso atravessar a rua para relembrar, mesmo que por minutos, de como foi importante para minha vida fazer parte de uma geração tão potente e inventiva que apesar de tantos defeitos e tantas confusões, crio um dos maiores movimentos de juventude da história da cidade.

Era do cacete organizar os encontros e as festas. Lembro do período que começamos a tentar colonizar Niterói fazendo encontros no Plaza, Bay Market e até festas em São Francisco. Nossa geração era a geração que ser promoter de choppada era o máximo do legal de tirar onda com cordões e anéis de prata com algum boné de tela da Von Dutch falso.

Para alguns era baderna, era zoação, era briga, mas para mim foi o momento mais interessante da minha juventude. Pude conhecer, aceitar e aprender com gente diferente, de tudo que era lugar da cidade e fazer amigos que carrego até hoje.

Quantas vezes passo na rua e lembro dos apelidos das pessoas. Fico andando no ônibus ou em alguma festa e lembro de como a pessoa era e em como está hoje. As maquiagens, os bonés, o jeito de falar, tudo mudou, mas todo mundo ainda se olha e lembra que já nos vimos pela grama do Shopping.

Num período que os seriados tem ocupado um espaço importante no cenário audiovisual mundial, a disputa pela Fazenda Colubandê se transformou numa narrativa digna de roteiros de cinema, Netflix e documentários. A cade novo episódio uma série de acontecimentos vão se conectando para construir esse imaginário de lutas, decepções e resistência do movimento de Ocupação.

A partir de hoje entramos no último episódio da primeira temporada. O ano de 2017 foi muito importante pra discussão desse patrimônio e mesmo já estando no final de novembro, ainda tem muita água para rolar. Certamente serão criados novos desafios para os roteiristas que vão continuar a escrever essa história em 2018.

Romario Regis - André Lazaroni

No último episódio estivemos com o antigo Secretário Estadual de Cultura André Lazaroni junto de artistas gonçalenses. A reunião produtiva e logo após tivemos uma reunião com a Secretaria de Planejamento que deixou claro a situação do imóvel. Fizemos a proposta de ter uma reunião com o Governador Pezão e fomos embora com uma boa percepção das conversas…

… mas como toda boa série, eis que Picciani, Paulo Melo e Albertassi são presos e o governo parou.

A partir da reflexão de Platão sobre “tempo do mundo e o tempo da ação”, vou criar um novo tempo chamado “tempo da política”. No tempo da política, é preciso ter paciência, resiliência e resistência e com a prisão desses parlamentares, o “tempo do mundo e o tempo da ação” parou para dar entrada ao “tempo da política” e infelizmente a Fazenda Colubandê está dentro desse tempo.

A prisão desses nomes faz um governo inteiro parar. Se não bastasse o fato de que temos três ex-Governadores (Cabral, Garotinho e Rosinha) presos, agora também temos os últimos dois presidentes da ALERJ desde 2003  (sem contar as presidências do próprio Cabral desde 1995) na mesma situação.

Uma vez, um político que já foi Prefeito do Rio me disse que é melhor uma crise num órgão específico do que uma crise política. Uma crise na saúde, na educação, na assistência social ou em qualquer outra área não faz um governo parar, mas uma crise política faz todo e qualquer documento ser deixado de lado como tem sido. A macro política está incidindo sobre a micro política e as políticas públicas estão estacionadas dentro de algum gabinete por ai.

O bom é que no paralelo do “tempo da política”, existem pessoas preocupadas com o “tempo da ação” e continuamos nos mobilizando pra dar substância ao pedido de reabertura da Fazenda Colubandê. Assim que o Governador piscar e olhar um pouco de volta para o dia a dia das cidades do Estado do Rio de Janeiro, estaremos nós encaminhando e pressionando da melhor maneira possível para que esse patrimônio cultural funcione de verdade.

E como termina o último episódio da primeira temporada?

Termina com um último evento na Fazenda Colubandê no dia 10 de Dezembro. Juntaremos Conselhos Municipais, Secretários de Cultura, Conselheiros Estaduais, Comissão de Cultura da Alerj, vereadores de São Gonçalo, Niterói, Maricá e Itaboraí e a Secretaria Estadual de Cultura para resolver em definitivo essa questão.

O spoiler para a próxima temporada é que independente do resultado, faremos o possível e impossível pela a reabertura da Fazenda Colubandê.

Adoraria começar esse texto falando sobre a história da Fazenda Colubandê, mas deixo esse conteúdo para o Luciano Tardock do Memória de São Gonçalo que é um dos projetos mais interessantes que debate o resgate histórico gonçalense, mas como um “comunicólogo”, vou tentar localizar a Fazenda Colubandê dentro da demanda contemporânea da cidade.

A Produção Cultural e Patrimonial Gonçalense sempre foi um excedente a ser carregado como uma “mala sem alça” pelo sistema público (municipal, estadual e federal) ao longo de todos os anos. Mesmo durante a gestão de Secretários Municipais, Estaduais ou Ministros sensíveis ao tema, continuamos perdendo patrimônios históricos, casarões e  investimentos assim como várias cidades das periferias do Brasil. Resumindo: Cultura nunca foi uma prioridade na nossa cidade mesmo sendo um setor produtivo importante para a economia local.

Romario Regis - Fazenda Colubandê

Voltando ao ano de 2012, quando a Fazenda foi abandonada, vários artistas, produtores e pessoas ligadas ao tema começaram a se movimentar para sua reabertura. Foram reuniões, textos, pesquisas, artigos e eventos  que desembocaram no projeto “Fazenda Colubandê – Quem Ama Cuida” em 2014, projeto de ocupação cultural que reivindicava investimentos nesse patrimônio a partir da centralidade da cultura.

Romario Regis - Governador Pezão na FazendaAlgumas sinalizações por parte do Governo do Estado foram feitas. Destaque para a promessa do Governador Pezão que em 2013 (ainda como vice-governador) apontava a construção de duas escolas, uma de ensino técnico e outra de segundo grau, e uma biblioteca no espaço, garantindo o espaço do casarão como uma referência regional para o campo da cultura e para os artistas locais.

Chega 2014 e já de maneira consolidada, o movimento “Fazenda Colubandê – Quem ama cuida” realiza um Piquenique Cultural com dezenas de instituições, coletivos, movimentos e grupos envolvidos na defesa da reabertura e manutenção cultural desse patrimônio.

Esse breve relato até 2014 (que continuou até hoje) da atuação dos movimentos sociais gonçalenses na defesa da Fazenda é uma narrativa necessária para posicionar a Fazenda Colubandê como uma das principais lutas do movimento cultural gonçalense. A Fazenda seria um dos nossos principais espaços de encontro e convívio como é o Solar do Jambeiro em Niterói, o Parque Laje no Rio de Janeiro.

As lutas continuaram. Outros eventos aconteceram, outros grupos se mobilizaram, matérias em diversos jornais foram feitas e um real avanço só foi encaminhado no final de 2017 através do empenho de André Lazaroni, o atual Secretário Estadual de Cultura.

André Lazaroni assumiu a Secretaria de Estado de Cultura no começo de 2017. Desde então, se comprometeu em ouvir os segmentos culturais e um deles foi o da Ocupação da Fazenda Colubandê (fica o agradecimento para Cleise Campos que tem sido incansável nesse debate). A partir dessa escuta e da oportunidade de reiniciar o POC,  Programa de Ocupação Cultural, a reabertura da Fazenda virou uma possibilidade real.

O Programa de Ocupação Cultural tem como objetivo a identificação de imóveis ociosos, e/ou fora de uso de propriedade do estado do rio de janeiro para destinação de fins culturais, como instalação de salas de leitura, e/ou de espaço multi cultural que agrupe a realização de atividades das variadas linguagens artísticas, ou de atividades no âmbito do audiovisual, ou atividades do âmbito das artes visuais, ou atividades no âmbito de espaços de memória.”

Lazaroni afirmou durante um encontro regional em São Gonçalo (4 de julho) que reabriria a Fazenda Colubandê através de uma parceria público privada aproveitando a Lei de ICMS. A partir desse apontamento, a equipe da Secretaria Estadual de Cultura começou a se articular e convidou e a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo para desenhar uma parceria para esse processo de ocupação elegendo a eu e Verônica Inaciola para coordenar a construção desse projeto.

Romario Regis - André Lazaroni

Construímos o projeto (a partir do acúmulo de 5 anos de atividades dos movimentos sociais e culturais locais), enquadramos dentro da lei de ICMS e na reta final para essa reabertura tivemos algumas barreiras que precisam ser ultrapassadas. Uma delas é a liberação em definitivo por parte da Secretaria de Planejamento e Gestão para o uso cultural da Fazenda, além da Polícia Militar (que atualmente ocupa o aparelho) entender que a Fazenda teria uma potência muito maior sendo usada pela cultura.

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Reunião de mobilização para a reabertura da Fazenda Colubandê no dia 05 de Novembro

Fica pensando nas inúmeras possibilidades que esse patrimônio pode cumprir em São Gonçalo. Eventos, Festivais, Formações, Escolas de Formação Artísticas, Casamentos, Gravações e uma ilimitada possibilidade de uso para uma cidade que ainda possui poucos investimentos em aparelhos culturais. Esse é um momento especial pois o Secretário Estadual de Cultura André Lazaroni está muito empenhado nessa disputa, pois é uma oportunidade incrível para a São Gonçalo disputar o imaginário da cultura para além dos aparelhos que estão abertos e principalmente para os movimentos sociais que estão nessa disputa desde 2012.

A reabertura da Fazenda Colubandê é necessária. Fico feliz de estar no poder público e poder contribuir com esse projeto e também saber que André Lazaroni está animado com essa reabertura e correndo atrás do dinheiro e da viabilidade técnica para isso.

Que em breve, as imagens sombrias e decadentes sejam substituídas por imagens bonitas de uma Fazenda ocupada por quem nunca deveria ter saído de lá, o gonçalense.