Você sabia que São Gonçalo tem três universidades públicas? A UERJ/FFP é a Faculdade de Formação de Professores, o IFRJ (Campus São Gonçalo) é o Instituto Federal do Rio de Janeiro (técnico e superior) e o Consórcio CEDERJ é focado em Ensino a Distância. Muito embora os três atuem em São Gonçalo, sempre que vou em alguma escola de Ensino Médio percebo que pouca gente sabe disso e talvez essas unidades sejam um passaporte para o futuro da educação gonçalense.

Posso estar falando besteira, mas tenho a impressão de que muito do desenvolvimento de cidade de Niterói passa pela UFF, do Rio de Janeiro passa pela UERJ e UFRJ e o do futuro de Maricá vai acontecer por conta do passaporte universitário, ou seja, a maioria das cidades que investiram em pesquisa através do relacionamento com a universidade puderam encontrar soluções para seus problemas.

O Corredor Educacional e a UERJ/FFP

Um dos casos que destaco é a Faculdade de Formação de Professores. Existe uma teoria sobre um projeto de corredor educacional construído por Darcy Ribeiro que não se desenvolveu que seria a combinação da FFP, Walter Orlandine, APAE, CIEP e Tarcísio Bueno. Fiz um mapa para você observar com mais clareza:

Como pode perceber, em 500 metros de rua você tem 5 unidades educacionais e de formação, sendo o CIEP além de escola, a sede da Diretoria da Metropolitana II. A UERJ, o Walter e o CIEP já tem alguma vida própria por conta de orçamento vinculado e vida institucional ativa. Já a APAE sofre com falta de recursos e o Tarcísio Bueno está fechado desde 2015 (e seu funcionamento foi transferido para o próprio CIEP).

Fico pensando sobre a integração dessas unidades (respeitando suas autonomias). Da construção política de uma escola aplicação da UERJ, de processos institucionais de cooperação técnica entre unidades para pesquisa, estágio e projetos de desenvolvimento local.

Um polo educacional que poderia experienciar (institucionalmente) metodologias que fossem ser acolhidas pela rede municipal e estadual. Muitos profissionais dessas unidades já fazem isso informalmente, mas a Prefeitura e o Governo do Estado podem incentivar de fato (com dinheiro e apoio técnico).

Sobre o IFRJ e CEDERJ.

As duas unidades estão fazendo um excelente trabalho. O IFRJ tem criado uma agenda de eventos importantes para o entendimento político da cidade através de alguns grupos de pesquisa atendendo o ensino técnico e superior e estão dedicados na aproximação do Instituto com a cidade. Já o CEDERJ trouxe uma variedade de graduações importantes e que ainda e muito pouco divulgado e explorado dentro do nosso território. Fato é que tanto esses dois como a FFP podem e são o passaporte para nosso futuro.

Na década de 90, a juventude gonçalense era representada majoritariamente pelo funk além de outras linguagens não tão populares. Nos anos 2000 foi o tempo do rock, bandas de garagem e os encontros de internet. Nos anos 2010 a internet vira um dos vetores para esses corpos se movimentarem.

A cena da Cultura Digital se dá de várias maneiras e através de várias caminhadas de grupos menores pra que todo esse ecossistema digital se estabeleça.

Um dos principais pilares é que a juventude de até 25 anos foi FORJADA na internet. As Lan Houses eram os principais Centros Culturais nos anos 2000, responsável pela maior parte da composição social da cidade. Muitos casais, famílias, amizades e relações que acontecem até hoje são fruto de uma geração que vivia na lan house e que começou a circular os bairros a partir dos clãs, encontros, msn e orkut.

A partir disso, temos três movimentos significativos. Um deles são os e-sports que é fruto das lan houses e de uma cena muito forte de Counter Strike, Warcraft e outros jogos. Outro movimento é o cenário do rap que surge após a decadência do rock nos anos 2000 a reboque das novas plataformas digitais que facilitavam a produção do rap como uma linguagem musical. A última e não menos importante são os veículos de comunicação que surgiram pela falta de mecanismos de encontro desde o Partiu (site de fotos), passando por veículos temáticos que hoje desembocam em páginas, jornais e pessoas que informam coisas.

O cenário dos youtubers é reflexo de uma formação digital informal de excelência que a cidade estabeleceu e que gerou, por algum motivo, uma série de conteúdos sobre diversos temas, principalmente os temas da moda e estética.

Um jovem ou uma jovem que se assume como youtuber em São Gonçalo não pode ser levado apenas como algo “infantil ou adolescente”. Se expressar em vídeo numa plataforma que qualquer um pode ver é, antes de mais nada, um desafio para poucos.

OS corpos dos jovens gonçalenses são maltratados por muitos anos. Sua movimentação nesse cenário de youtubers ou influenciadores digitais é uma caminhada pelo direito de ser visível, de ser visto, de ter seu corpo representado no universo digital e espelhado no universo físico.

Escrevi esse texto por conta de uma frase da Paula Machado, em que ela cita sua vizinha dizendo que a conhecia e que acompanhada seu canal. Essa sua fala é o tipo de conexão feita a partir das relações de representação. Uma menina de um bairro se vê no conteúdo de outra menina do mesmo bairro e isso acontece em outras dimensões.

São conteúdos customizados pois o poder econômico dos produtos é o mesmo. São conteúdos representativos pois são os mesmos perrengues pra viajar, namorar, sair. São conteúdos divertidos por que falam dos dilemas da própria cidade.

Ontem, na rua, perguntei para uns moleques de 10 anos qual era o time deles.

Imediatamente, responderam atropelando a fala um do outro que torcia para os times da Pain, Red Canids, CNB e falaram os nomes dos atletas como Revolta, Mylon, Kami, Yoda, Brtt.

Nesse momento devem ter três tipos de pessoa lendo;

1 – as que sabem sobre o que estou falando.
2 – as que sabem e que acham idiota.
3 – as que não acham nada por que não sabem.

Pra quem não sabe, esses times são de um jogo chamado LOL. Se trata de um jogo online de estratégia, ação e rpg que 5 jogadores jogam contra outros 5 jogadores.

E por que vim falar disso?

Por que rolou mais uma final do CBLOL e nenhum jogo do Flamengo, Vasco, Palmeiras, Corinthians ou outro time qualquer mobilizou mais gente online do que o LOL. Ainda que esses times estejam começando a disputar esse imaginário, ainda não movem tanto o jovem online como esses times.

A cultura digital mudou o mundo. Já mudou a muito tempo, mas agora é só a consolidação dessas mudanças.

Quando eu jogava Counter Strike e Futebol no mesmo período, nitidamente existia uma prioridade para o futebol, mas isso não é uma regra para essa nova geração. O cenário de e-sports (games esportivos) cresceu muito e os salários, estrutura e tudo mais são mais fortes e com belas premiações.

Acompanho muito esse cenário. Faço algumas contribuições textuais para alguns blogs sobre os bastidores e sobre o mercado do mundo de jogos digitais e estou muito feliz do Brasil estar crescendo nesse segmento.

Apesar do saudosismo imediatamente dizer pra gente que jogos digitais são coisas de Nerd, coisa de gente que não sai, que não faz nada da vida, é preciso reconhecer as novas maneiras de viver, ganhar direito e ser feliz.

Sim, hoje, em 2017, é possível que uma criança opte em ver Red Canids em Recife ao invés de assistir Flamengo e Vasco no Maracanã e isso não é absurdo, é a mudança das praticas esportivas e comportamentais da nova geração.

Sei que esse texto não deve ser do interesse da minha rede de amigos, mas se tem um conselho pra dar é que o mundo mudou e é preciso reconhecer que nem sempre o que a gente acha que é o melhor para a nova geração é o que a gente viveu.