A primeira vez que conheci essa região da cidade foi durante minha adolescência. Achei estranho sair de Alcântara e minutos depois estar num lugar com sítios, fazendas, bois e plantações. Era uma contradição para minha cabeça acostumada com o Rodo e Alcântara.

Uma região construída pelos negros escravizados da Fazenda Engenho Novo.

Parte da economia gonçalense antes da industrialização passava por Santa Izabel, Monjolos, Largo da Ideia e bairros próximos. Durante o segundo império essa região foi muito importante para a economia do Estado por conta da produção de café e a segunda fase de força econômica foi até os anos 60 durante o Estado Novo por conta da extração de calcário e da citricultura (produção de frutas cítricas).

O centro dessa região era a Fazenda Engenho Novo. Esse espaço foi palco de uma parte importante da história da cidade já que nomes relevantes passaram por lá como é o caso do Barão de São Gonçalo e também da família Serrado. Vale lembrar que atualmente parte significativa dos moradores são descendentes de escravos que ficaram na região ou conseguiram terrenos após a construção do Assentamento Rural Fazenda Engenho Novo.

Assentamento Rural Fazenda Engenho Novo e a agricultura familiar.

Em 1993 o ITERJ, Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro, desmembrou as terras da Fazenda Engenho Novo. Foram 147 sítios (terrenos separados) criados a partir das terras da Fazenda para o desenvolvimento da agricultura familiar. Fui na região em 2010, 2011 e 2012 para conhecer um pouco mais da área e me surpreendi, já naquela época, com a infinidade de possibilidades que aquela região apresentava como saída para a alimentação e economia de São Gonçalo.

Em 2012, por exemplo, um grupo de agricultores franceses foi conhecer a região da Fazenda Engenho Novo. Os europeus vieram para São Gonçalo para conhecer o programa de assentamentos rurais que produziam frutas, hortaliças, gado de leite e de corte, suíno e avicultura.

Além da organização das terras por parte do ITERJ lideradas pela Secretaria Estadual de Habitação, a EMATER, Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro, dava suporte técnico para o desenvolvimento da produção dessas famílias. A EMBRAPA também contribuiu bastante nesse período, mas rapidamente se afastou.

O hoje que ignora o passado e que não tem projeto de amanhã.

Desde o final da gestão de Aparecida a região não recebe a devida atenção. Já escrevi dias atrás o quanto Panisset fez coisas ruins para São Gonçalo, mas é preciso destacar que nesse setor ela conseguiu ser mais eficiente que a média dos Prefeitos da cidade. O Governo Neílton chegou a ter uma ou outra iniciativa, o Nanci chegou a se movimentar através da Secretaria responsável, mas nada que fosse uma política com energia suficiente.

Atualmente o ITERJ continua fazendo algumas ações, mas a realidade é que nossa política de agricultura para aquela região não dá conta da atenção que ela precisa. O município tem feito esforços, o ITERJ tem feito esforços, mas nada que consiga integrar aquela região aos campos econômicos da cidade num volume significativo para um município com mais de um milhão da habitantes.

Conheci Santa Isabel quando tinha 17 anos. Fui visitar um amigo e imediatamente me surpreendi com uma região da cidade que tinha uma característica totalmente diferente dos espaços que eu estava acostumado. No imaginário popular, Santa Isabel, Monjolos, Largo da Ideia e todos os bairros daquela região são um “fim do mundo” para se morar, mas esses lugares podem ser uma saída importante para a recuperação econômica da cidade.

Romario Regis nas Fazendas da Região

É bem verdade que nunca tivemos grandes políticas públicas para o desenvolvimento da agricultura e pecuária em São Gonçalo. Tivemos alguns bons secretários que fizeram o possível para organizar algo, tivemos a UERJ/FFP com pesquisas importantes na área, mas nada estratégico. Lembro de alguns avanços por parte do ITERJ que tentou desenvolver a região e levar uma Universidade Federal para a Fazenda Engenho Novo, alguns Secretários Municipais dedicados, mas com pouca consolidação.

Santa Isabel pode ser um polo econômico importante para nossa cidade. A maioria da nossa arrecadação é através de IPTU e serviços e consumo. O IPTU tem alta taxa de inadimplência, a população não vê o retorno dos serviços no seu dia a dia e a arrecadação por consumo e serviços é suprimido por conta da gente gastar muito dinheiro fora do município, com isso, o ISS, imposto municipal, fica nas outras cidades.

Um dos Sítios de Santa Isabel

Nessa região existe o desenvolvimento de sítios menores para a produção local, mas sem acesso à crédito, sem investimentos públicos (desoneração de imposto e/ou garantias de compras) e organização urbana para tal, a produção será sempre pulverizada e em pequena escala. Com isso, a região não consegue impactar significativamente a vida econômica do município.

Temos mais de um milhão de habitantes, muita gente comendo, circulando e pouca geração de riqueza a partir das nossas vocações. Não dá para fazer a cidade crescer sem dinheiro. O orçamento de São Gonçalo não chega a um bilhão de reais e o pouco do setor privado que restou na cidade está numa situação difícil por conta da crise econômica dos últimos anos, por conta da quebra do Estado e pela pouca capacidade de compra do consumidor.

Fazenda Engenho Novo