A Segurança Pública não pode ser tratada como assunto de boteco

Desde o início das UPP’s na cidade do Rio de Janeiro, São Gonçalo sofre com a migração da violência. De 2008 pra cá, a minha cidade virou uma espécie de caixa de Pandora dos problemas de segurança pública.

Lembro como se fosse ontem a mudança de perfil do crime organizado na cidade. As músicas, a maneira de se vestir e principalmente a agressividade da atuação em territórios deflagrados eram nítidas. Para além disso, o calibre dos conflitos também aumentou e até a dinâmica de disputa territorial.

A consequência de São Gonçalo ter sido largada ao longo dos anos pelo Estado, é que a nossa cidade virou um espaço geográfico que dia após dia, semana após semana, as barricadas entram ainda mais nos eixos centrais próximos das principais.

O pior é que não se trata de uma disputa entre “Estado e Poder Paralelo”, afinal, parte do Estado também é poder paralelo e o poder paralelo também tem braço no Estado. Não vejo problema quando a população “resume” o debate de segurança pública ao “bandidos x mocinhos”, mas esse tema é muito mais profundo.

A população falar, aleatoriamente, frases prontas, tudo bem. O problema é quando nós, políticos, resumimos o tema dessa maneira. A concepção de que “tem que matar todo mundo x o estado não pode ter pulso firme” não pode ser o tom da discussão.

A discussão de segurança pública deveria ser também sobre educação, assistência e desenvolvimento econômico. Achar que troca de tiro e operação pontual resolve problema é um equívoco. Além disso, achar que matar bandidos ao mesmo tempo que mata inocentes e policiais é outra grave contradição.

Não espero nada de quem resolveu ir para a vida do crime e não tenho a expectativa que esses cumpram as leis, mas o Estado não pode, em nenhuma hipótese, seguir a mesma lógica. Não podemos naturalizar o crime e achar que os territórios dominados pelo tráfico ou pela milícia são coisas normais e também não podemos naturalizar o Estado ignorando a legislação.

Enquanto o debate em São Gonçalo ou em qualquer outra cidade for “tem que dar tiro na cabecinha” ou “o Estado não tem que recuperar os territórios dominados”, nós vamos ficar num looping sem solução.

O Governo do Estado, a Prefeitura e o Governo Federal precisam entrar nas regiões dominadas pelos poderes paralelos com saúde, educação, cultura e também com a pauta da segurança pública. A questão é que não colocam saneamento, boas escolas, centros culturais e só entram com operação.

Nenhum policial tem que morrer em operação. Nenhum inocente tem que morrer em operação. Ninguém deveria morrer em operação. Naturalizar a morte de qualquer um em operação policial sempre será um erro, sempre!

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