Mobilidade Urbana

Sem rodovias se encontrando, não existe desenvolvimento em São Gonçalo

Sou apaixonado por Mobilidade Urbana. Tenho um mapa gigante da cidade guardado a quatro chaves. Quando penso algo sobre a infra, geografia ou mobilidade, abro ele no chão e começo a refletir sobre nossos desafios locais e regionais a partir do nosso território.

Sei que existe um debate sobre as Barcas, Metrô e BRT que estão impregnados dentro de um imaginário popular de lutas e de uma agenda necessária para o desenvolvimento da cidade. Ao mesmo tempo é preciso compreender o sistema de mobilidade agregado às demandas econômicas, sociais e estratégicas pra recuperação básica das contas públicas e uma facilitação para que a indústria e o comércio se instalem por aqui.

Nesse texto irei discutir apenas as Rodovias da cidade. Barcas, Metrô, BRT e outros modais ou sistemas são debates transversais em relação às rodovias, mas não é o foco dessa reflexão. Entendidos? rs.

BR101 e RJ104 – Rodovias importantes, mas que não cumprem um papel estratégico  contemporâneo para a cidade. 

São Gonçalo sempre foi uma cidade que alimentou outras cidades com mão de obra. A maioria das políticas de mobilidade da cidade foram pensadas a partir do deslocamento de pessoas para outros centros urbanos, especialmente para as últimas duas capitais do Estado, Rio de Janeiro e Niterói.

Apesar de parte significativa de algumas rodovias passarem por São Gonçalo, elas não conectam os nossos centros comerciais aos acessos para outros municípios. Temos um ponto de encontro entre rodovias em Tribobó, mas que não tem desenvolvimento local para atender demandas comerciais de outros municípios. Paralelo a isso, a RJ104 e a BR101 não possuem nenhuma conexão dentro da nossa cidade e os dois pontos de encontro que elas possuem são; em Niterói (descida da ponte) e Itaboraí (manilha). Perceba que tanto Niterói e Itaboraí, no entorno dos encontros dessas rodovias, possuem caminhos para seus centros comerciais.

Niterói, por ter sido capital, já tem uma estrutura pensando nesse escoamento a partir das rodovias. O Bay Market, as barcas e o terminal rodoviário viraram um centro econômico que gera muitos postos de trabalho e impostos por conta do comércio. É provável que a maior parte do consumo daquela região seja feita justamente por gonçalenses que precisam parar nesse espaço para mudar de modal ou por não ter uma alternativa de centro econômico na sua cidade conectado com as nossas rodovias.

Já Itaboraí tem uma estrutura muito precária quando a gente pensa na projeção de cidade. O COMPERJ poderia qualificar a cidade, mas sua quebra fez com que Itaboraí voltasse muitos anos atrás. Mesmo assim, Manilha, por ser um ponto que conecta duas rodovias, conseguiu agregar valores econômicos naquela região. Tem uma micro-rodoviária, comércio local, postos de gasolina, mercados e centenas de práticas informais por conta da pausa que os usuários das rodovias fazem seja vindo pela BR ou pela RJ.

A partir dessas reflexões anteriores, minha opinião é que a BR e a RJ não cumprem um papel estratégico para o momento da cidade. Uma cidade com mais de 1,2 milhões de habitantes não pode ter duas rodovias desse porte que tem seu funcionamento quase que por completo baseado na circulação de pessoas.

Seria Alcântara esse esse ponto de encontro?

Formulamos muito mal as políticas públicas e os estudos sobre a nossa cidade e isso faz com que qualquer reflexão seja frágil do ponto de vista teórico. A minha é. Podem discordar pois estou levantando uma discussão. Não se trata de uma tese, mas de uma reflexão muito precária.

Pois bem.

Acho o crescimento desorganizado de Alcântara terrível e vejo poucas alternativas para aquela região que não seja proibir novas construções e criar uma política de longo prazo para remover/reorganizar parte dos prédios e empreendimentos. Não vou me aprofundar nesse debate nesse momento, mas será um tema que vou desenvolver em algum momento.

Duas das poucas vocações momentâneas que vejo para Alcântara são; organizar a informalidade do bairro para aumentar a arrecadação do município e; Criação de uma conexão mais clara da RJ104 com o acesso à BR101.

O Viaduto de Alcântara, para além de ser horrível, perigoso, nojento, é uma via de fazer o dinheiro sair de São Gonçalo sem estacionar mesmo que pouco. Estamos em 2018 e nosso principal polo de arrecadação de impostos tem um viaduto que faz as pessoas não passarem dentro dele. Temos duas rodoviárias privadas que além de não terem nenhuma conexão, não cumprem NENHUMA função estratégica pra mobilidade da cidade a não ser a ampliação imediata da arrecadação de uma ou outra empresa.

Acredito que a médio prazo Alcântara poderia ser esse local, mas seria necessário a remoção de diversos empreendimentos que precisam ser realocados, mas que sim, teriam que sair como TODA CIDADE EM DESENVOLVIMENTO FAZ. A criação de uma rodoviária de médio porte, a organização daquele espaço para que o comércio arrecadasse com mais segurança, limpeza e uma estética mais agradável poderia ser um caminho.

Pra São Gonçalo conseguir desenvolvimento, precisa destruir parte da cidade.  Pra São Gonçalo conseguir desenvolvimento, precisa aproximar as rodovias.

É óbvio que existem outras dezenas de fatores e questões que iriam ampliar o desenvolvimento da cidade, mas elegi as rodovias para esse texto. Ao fim do texto (que escrevi sem planejar), percebo que o mínimo e o básico da melhoria da nossa cidade precisa ser feita através de MUITA REMOÇÃO.

Nossas vias são muito ruins, nossos acessos são muito ruins. O Centro de São Gonçalo é mal planejado. Alcântara é mal planejada. O Colubandê que se coloca como um novo centro é mal planejado e tudo que vai sendo construído por aqui vai virando uma gambiarra dentro de um sistema de vias que não tem como contribuir para o crescimento do nosso território.

É preciso remover empreendimentos pra abrir vias principais. É preciso remover empreendimentos pra criar novas entradas e saídas para a cidade. É preciso remover quilômetros de casas, lojas e empreendimentos pra conectar DE VERDADE a BR101 até a RJ104 e infelizmente não vejo essa possibilidade a curto e médio prazo por conta da demanda financeira que isso custaria.

O baixo número de multinacionais, de investidores e do próprio momento do Brasil fazem esse meu texto parecer uma piada, mas essa é uma reflexão necessária pra gente ir desenhando políticas públicas que tenham um objetivo ao fim do percurso.

Comecei otimista. Terminei triste. Espero poder participar desses debates ou pelo menos saber que eles começaram antes da minha morte. Que um dia a gente tenha dinheiro, financiamento privado e público e um plano de cooperação entre os entes federativos pra gente pensar na nossa cidade para além do buraco na rua.

 

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