Segurança Pública

Fui roubado em São Gonçalo e não serei o último.

Já escrevi isso em outras oportunidades, mas parece que a Segurança Pública passou a ser a principal questão da cidade. A falta dela tem prejudicado a saúde e entretenimento das pessoas que não saem mais de casa, tem prejudicado a educação da cidade por conta de conflitos dentro e fora dos ambientes educacionais e tem feito os gonçalenses se apequenarem.

Viramos seres desejantes, porem pequenos. Cheios de desejos de viver, mas ao mesmo tempo cheios de traumas por conta de ter sido, ter visto ou ter escutado alguma história pesada sobre a violência de um assalto.

Lembro, em tom saudosista, da minha infância em que o assalto só acontecia à partir das 21h da noite. Aos poucos, São Gonçalo virou arena de conflitos entre facções, milícias e pessoas que de maneira autônoma entraram nesse ringue seja por falta de investimentos nas áreas como educação e cultura, seja pela migração da violência por conta instalação das UPP’s nas favelas cariocas, etc.

Sei que será um texto relativamente grande e que no final das contas, as pessoas vão reduzir tudo ao “mata ou não mata” o bandido. Isso também é reflexo desse momento de total insegurança e total opressão por parte do poder paralelo e por conta do Estado não dar conta do mínimo.

Tudo começou quando alguém não começou.

A complexa geografia desse grande território se transformou em parte do problema de segurança. O segundo distrito (Santa Isabel, Maria Paula, Almerinda, etc) que tem uma vocação para agricultura foi deixada de lado ao longo dos anos. Poucas linhas de ônibus, conflitos por conta da mobilidade urbana (vans x ônibus), pouca atuação dos órgãos públicos de execução e fiscalização.

Já o quarto distrito foi deixado de lado depois que Neves passo a ser quase irrelevante economicamente para a cidade. Neves, que um dia foi o vetor econômico num período que São Gonçalo era chamada de Manchester Fluminense, passou a ser um espaço em ruínas, com grandes terrenos vazios, proximidade com o Rio de Janeiro e Niterói, saída para a Br e nenhuma revitalização arquitetônica e urbana. Resultado disso é um região com muitos terrenos largados, muitas saídas e lugares para fuga, proximidade com muitas vias, etc.

O primeiro, terceiro e quinto distrito que possuem características parecidas em relação ao volume populacional já sofrem mais com a infra das regiões. O primeiro distrito se diferencia por ter muitos bairros de “classe média” como Trindade e Zé Garoto, mas mesmo assim o volume populacional dentro de um processo desordenado de crescimento gera um ambiente propício para a criação dessas violências.

Sérgio Cabral, UPP’s e a migração da violência.

Outro fato contemporâneo para o aumento da violência é a implementação das UPP’s no Rio de Janeiro. O projeto de ocupação entrou nas favelas cariocas, mas não efetuou um volume necessário de prisões, logo, traficantes e outros criminosos saíram das favelas e se instalaram em municípios como Niterói, São Gonçalo e outros da Região dos Lagos.

Assim que o programa de Ocupação ganhou visibilidade, ficou nítido a diferença do poder paralelo na cidade. O tipo de roupa, de gírias, de atuação eram diferentes. A “relação” desses grupos com os conhecidos “moradores” também havia mudado. Muita gente de fora estava chegando e a cidade, o poder público, a polícia e os outros órgãos não estavam preparados. Assaltos pela manhã, assaltos seguidos de agressão, assaltos com uso de fuzis e outras práticas que São Gonçalo não convivia.

As UPP’s já estão quase no fim, mas não acredito que esses “imigrantes” voltem para o Rio. Para quem viveu durante anos na lógica dos conflitos diários no Rio de Janeiro, São Gonçalo vira doce de criança. Poucos veículos de comunicação, poucos agentes disponíveis, poucos recursos, pouca infra-estrutura e poucas oportunidades fazem a nossa cidade ser um lugar ideal para o crescimento desenfreado para novos criminosos.

Tem jeito?

Não sou um profissional ou um estudioso da Segurança Pública. Tudo que estou escrevendo aqui é baseado em observação de outras cidades e de conversa com profissionais de diversas áreas e posições ideológicas. E a partir dessa escuta, minha reflexão é de que precisamos pensar a Segurança em três etapas.

A primeira etapa é entender o tipo de violência que nossa cidade tem. Temos milícia? Temos tráfico? Temos assaltos? A partir do mapa de violência, precisamos traçar os caminhos, geografia e de que maneira esses crimes são operados na cidade. Um raio-x da violência e seus caminhos são dados fundamentais pra gente fazer uma análise e o perfil que é a realidade da segurança pública da cidade.

A segunda etapa é identificar quais são nossos recursos disponíveis e qual é a nossa capacidade e nossa inteligência pra mobilizar pessoas, orçamento e ferramentas para essa solução. Temos um volume de policiais suficiente? Temos capacidade de pensar em cooperação com outros municípios? Qual é o nosso poder político pra trazer recursos para a cidade?

A terceira é o planejamento de atuação. Quais medidas a curto, médio e longo prazo temos a disposição? Quais programas e políticas públicas precisamos criar para que o crime não cresça? Quais as nossas iniciativas para o jovem não ver a arma como a sua única oportunidade de trabalho?

O problema de Segurança no Brasil e no Estado são muito graves, mas os municípios precisam mobilizar suas inteligências pra pensar nisso. Depois que fui assaltado, percebi que minha atuação na cultura é uma contribuição para a redução de crimes, não é suficiente em curto prazo.

Eu não sei exatamente o caminho, mas minha bússola é que a gente precisa falar de Segurança Pública para além do “matar ou não matar”.

 

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