São Gonçalo tem mais de 1 milhão de habitantes. Uma parcela significativa já tentou viver ou vive através da economia da cultura. São músicos, artistas, atores e produtores culturais que escolheram um ofício dentro do campo da cultura assim como os médicos, engenheiros e professores escolhem suas áreas profissionais.

Em 2008 quando eu tinha 17 anos, comecei a me envolver com as discussões sobre políticas públicas da cultura. Fiz parte da Comissão de Organização de uma Conferência Municipal de Cultura. Ajudei a organizar, mobilizar, lotar como a maior Conferência Municipal de Cultura daquela época e fui eleito Conselheiro Municipal de Cultura. Ainda naquela época, construímos o Plano Municipal de Cultura que seria um documento guia das necessidades básicas e complexas do campo cultural gonçalense.

Plano Municipal de Cultura é um documento que prevê as necessidades de um município em relação ao campo da cultura e quais projetos, iniciativas e encaminhamentos precisam ser feitos pelos governos existentes.

Durante aquele ano, mais de 900 pessoas contribuíram para o documento (além das contribuições anteriores de outros gestores, artistas e produtores). Páginas e mais páginas com propostas de festivais, aparelhos, projetos, programas e demandas da cultura gonçalense. A partir disso, bastava que a Câmara de Vereadores votasse e pronto, teríamos um documento válido por 10 anos. Nada aconteceu. Nada avançou.

Desde então, não existia alguma mais expectativas da aprovação. Junto da equipe, conseguimos encaminhar oficialmente o documento para a Câmara de Vereadores e com todo o apoio do Conselho Municipal de Cultura e Câmara de Vereadores, conseguimos aprovar o documento.

Agora é oficial. São Gonçalo tem um Plano Municipal de Cultura que prevê objetivos e metas entre 2018 e 2028. São prazos para a reabertura do teatro, criação de programas de incentivo a cultura, projetos de festivais e formações, etc.

Se você tem mais de 20 anos e menos de 35, provavelmente conheceu alguém que frequentava os encontros de internet no Shopping São Gonçalo. Todo sábado estávamos lá envolvidos com as brigas, flertes, encontros, desencontros e risadas que aquele pedaço de grama na frente do Shopping trazia para nós.

Hoje a internet é popular, mas naquela época não. Foi uma geração de transição. Nossos pontos de encontro que eram as esquinas foram virando a busca eterna por promoções numa lan house qualquer. Aos poucos, o Counter Strike ia virando ICQ e MSN. O cheiro de homens, pão velho e mortadela ia dando espaço para o cheiro do perfume das mulheres que iam fazendo os jogos em rede cada vez menos interessantes.

Bons tempos. Época de trocar lista de MSN, de pensar na melhor coloração dos nick’s do chat e escolher a melhor playerlist para aparecer no “o que você está ouvindo”. Era tempo de entrar e sair do MSN para fazer com que alguém puxasse assunto e começar o desenrolo para o sábado virar point de encontro.

Cada um com seu bonde, com seu tipo de roupa, com sua falsificação ideal da feirinha de itaipava, com os perfis I, II, II e IV do orkut lotados e alguma foto de câmera digital que não era sua ou no máximo de uma webcam de baixa resolução.

Estamos ficando velhos. O tempo está passando e cada um foi seguir seu rumo. Alguns viraram advogados, músicos, jornalistas, maconheiros, bandidos e todo mundo virou algo mesmo que alguns ofícios não sejam de dar orgulho. Foi bom compartilhar e fazer parte de uma geração que descobriu junto o potencial da internet e criou parte do seu entendimento de rede e coletividade a partir das combinações sociais que o encontros de internet proporcionava.

As vezes fico pensando do que seria da minha vida sem os encontros. Parte da minha formação, personalidade e sagacidade foi desenvolvida lá. Pensar em estratégias para ser mais popular para entrar nas festas de graça, tentar arrumar uma grana para poder comer meu Mc Donald’s aos sábados, poder ir no cinema a tarde já encaminhando a ida para a grama e tentar entrar em contato com o máximo de pessoas possíveis. Resumindo: todo mundo queria um scrapbook lotado.

Para além de um saudosismo, bate uma saudade de querer saber onde todo mundo está. Queria ver o rosto de cada um novamente e poder ouvir o que aconteceu desde então. Saber dos casais e crianças geradas através do G3, de quem brigou e depois virou amigo, de quem emagreceu, de quem engordou, de quem enriqueceu, de quem foi preso, dos puto, das puta, dos feios, dos bonitos, de todos.

Foi triste deixar de frequentar os encontros e ver sua decadência. A grama do Shopping São Gonçalo tem história, mas tanta história que sempre que passo lá preciso atravessar a rua para relembrar, mesmo que por minutos, de como foi importante para minha vida fazer parte de uma geração tão potente e inventiva que apesar de tantos defeitos e tantas confusões, crio um dos maiores movimentos de juventude da história da cidade.

Era do cacete organizar os encontros e as festas. Lembro do período que começamos a tentar colonizar Niterói fazendo encontros no Plaza, Bay Market e até festas em São Francisco. Nossa geração era a geração que ser promoter de choppada era o máximo do legal de tirar onda com cordões e anéis de prata com algum boné de tela da Von Dutch falso.

Para alguns era baderna, era zoação, era briga, mas para mim foi o momento mais interessante da minha juventude. Pude conhecer, aceitar e aprender com gente diferente, de tudo que era lugar da cidade e fazer amigos que carrego até hoje.

Quantas vezes passo na rua e lembro dos apelidos das pessoas. Fico andando no ônibus ou em alguma festa e lembro de como a pessoa era e em como está hoje. As maquiagens, os bonés, o jeito de falar, tudo mudou, mas todo mundo ainda se olha e lembra que já nos vimos pela grama do Shopping.

Na década de 90, a juventude gonçalense era representada majoritariamente pelo funk além de outras linguagens não tão populares. Nos anos 2000 foi o tempo do rock, bandas de garagem e os encontros de internet. Nos anos 2010 a internet vira um dos vetores para esses corpos se movimentarem.

A cena da Cultura Digital se dá de várias maneiras e através de várias caminhadas de grupos menores pra que todo esse ecossistema digital se estabeleça.

Um dos principais pilares é que a juventude de até 25 anos foi FORJADA na internet. As Lan Houses eram os principais Centros Culturais nos anos 2000, responsável pela maior parte da composição social da cidade. Muitos casais, famílias, amizades e relações que acontecem até hoje são fruto de uma geração que vivia na lan house e que começou a circular os bairros a partir dos clãs, encontros, msn e orkut.

A partir disso, temos três movimentos significativos. Um deles são os e-sports que é fruto das lan houses e de uma cena muito forte de Counter Strike, Warcraft e outros jogos. Outro movimento é o cenário do rap que surge após a decadência do rock nos anos 2000 a reboque das novas plataformas digitais que facilitavam a produção do rap como uma linguagem musical. A última e não menos importante são os veículos de comunicação que surgiram pela falta de mecanismos de encontro desde o Partiu (site de fotos), passando por veículos temáticos que hoje desembocam em páginas, jornais e pessoas que informam coisas.

O cenário dos youtubers é reflexo de uma formação digital informal de excelência que a cidade estabeleceu e que gerou, por algum motivo, uma série de conteúdos sobre diversos temas, principalmente os temas da moda e estética.

Um jovem ou uma jovem que se assume como youtuber em São Gonçalo não pode ser levado apenas como algo “infantil ou adolescente”. Se expressar em vídeo numa plataforma que qualquer um pode ver é, antes de mais nada, um desafio para poucos.

OS corpos dos jovens gonçalenses são maltratados por muitos anos. Sua movimentação nesse cenário de youtubers ou influenciadores digitais é uma caminhada pelo direito de ser visível, de ser visto, de ter seu corpo representado no universo digital e espelhado no universo físico.

Escrevi esse texto por conta de uma frase da Paula Machado, em que ela cita sua vizinha dizendo que a conhecia e que acompanhada seu canal. Essa sua fala é o tipo de conexão feita a partir das relações de representação. Uma menina de um bairro se vê no conteúdo de outra menina do mesmo bairro e isso acontece em outras dimensões.

São conteúdos customizados pois o poder econômico dos produtos é o mesmo. São conteúdos representativos pois são os mesmos perrengues pra viajar, namorar, sair. São conteúdos divertidos por que falam dos dilemas da própria cidade.