Quando era moleque, joguei bola em vários campos da cidade. Existia um circuito importante dos campos que gerava uma série de campeonatos, encontros e oportunidades para jovens que queriam trilhar o caminho profissional do futebol espalhados pelos bairros.

Lembro que um dos papos da minha adolescência com meus amigos era que cada vez mais os jogadores da cidade eram criados em escolinhas. Ao mesmo tempo, reconhecíamos que a várzea sempre foi uma característica local marcante. Não estou fazendo um juízo de valor pra dizer se a escolinha era melhor ou pior, mas tenho certeza que a função social dos campos de várzea como espaço-tempo em que os jovens gastavam energia era e continua sendo necessário. Amizades, histórias, brigas e colaboração na divisão do Tobi dava o tom das partidas.

Junto da especulação imobiliária e uma falta de planejamento urbano da cidade, as construtoras e grandes conglomerados de investidores foram comprando todos os terrenos gonçalenses. Até determinado momento, a exploração desses terrenos como estruturas residenciais não era interessante por que o crédito era baixo e pouca gente compraria apartamentos em determinados bairros.

Conforme o crédito (mesmo com juros absurdos) foi aumentando, o mercado imobiliário cresceu e junto disso as construtoras e empresas donas desses terrenos foram transformando os campos em conjuntos habitacionais. Os campos que antes eram “públicos”, passaram a sumir por conta dos condomínios que não teriam mais abertura antes da construção.

É ótimo que as construtoras tenham interesse em investir em São Gonçalo e tentar impactar positivamente e diminuir os desequilíbrios habitacionais que nossa cidade tem. Ao mesmo tempo, é muito triste ver campos históricos sumindo. É preciso investir, é preciso que novas oportunidades de compra de imóveis apareça, mas é importante também que essas construtoras deixem contra-partidas para a cidade que sejam de interesse público nessa mesma linha.

Não sei se serei vereador um dia, mas era importante que a câmara da cidade compreende-se a importância do patrimônio imaterial que são os campos de várzea. É preciso pensar numa legislação local que equilibre o uso público dos espaços da cidade com os novos investimentos e novos empreendimentos.

Era um encontro impossível. Desde a infância seus caminhos seriam separados pelos modos, comportamentos e formação de núcleo familiar. Suas histórias, separadas pela geografia da cidade não chegava perto das distinções naturais que tinham.

Ele tinha riso frouxo, corria, pulava e vivia circulando a cidade em busca de marcar o território. Já ela não ligava para maquiagens e estética, adorava comer em todo lugar que parava e adorava se jogar na lama enquanto brincava.

Todo dia eles se trombavam pelas esquinas da cidade. Ficavam sem graças de ficar perto um do outro, pois todos olhavam com desaprovação. Certa vez, durante um encontro perto de Guaxindiba, uma mulher jogou água gelada nos dois. Era sempre assim.

Encontros acabados por água gelada. Encontros acabados por buzinas. Encontros acabados por conta dos próprios amigos.

Apesar de todos os problemas, São Gonçalo é uma cidade possível. Entre os problemas de estrutura, de economia e de segurança, o amor ainda existe. E foi baseado nisso que Carlos e Viviane não desistiram um do outro.

Carlos acordou depois de roer osso a noite inteira preocupado com seu dia seguinte, tomou seu banho na bica da padaria e andou até o Porto da Pedra. Passava por Alcântara, Estrela do Norte e Centro como se fosse seu último dia de vida.

Ele virou no Roger sentido Porto da Pedra já cansado, bebeu água num boteco na esquina do Beco do Urubu sabendo que encontraria Viviane num terreno baldio ali perto.

Ao virar a rua, Carlos olhou Viviane de costas e foi em sua direção. Viviane olhou de volta, largou um saco de babatas que estava em sua boca e disse para Carlos:

– oinc.

e assim foram felizes para sempre, tendo sua história contada por toda cidade.

Adicionei a Evelyn Dias no facebook no dia 30 de Setembro de 2016. Trocamos algumas ideias e descobrimos que tínhamos uma paixão em comum que era a fotografia. Eu, por amor. Ela, por amor e profissão. Trocamos fotos, conversamos sobre o mercado e desde então sempre vejo suas fotos e promoções aqui pela timeline.

Evelyn é uma das jovens que encontrou na fotografia uma maneira de gerar a economia da sua vida e contar histórias através da imagem. Ela não é um caso isolado. Existem nomes importantes dessa mesma geração que se apaixonaram pela pelo registro da imagem e fazem disso o seu ganha pão, além de se encontrar no mundo através de um click.

Talvez ela nem saiba, mas São Gonçalo foi uma cidade importante no desenvolvimento da fotografia e do audiovisual como uma linguagem de impacto social. Tivemos e temos até hoje o Projeto Amo Salgueiro idealizado pelo Jorge Canela que foi fundamental para o desenvolvimento da imagem como uma ferramenta de redução de desigualdades e também o Movimento In Foco liderado pelo Luis Alvarenga que além de ser uma escola de fotografia, é uma escola pra vida.

Quer conhecer mais do trabalho de Evelyn Dias? Acesse o facebook e o instagram com todos os seus trabalhos e saiba que ela está com uma promoção de Natal em parceria com Flash Me e Renatha Fogaça Fotografia. A Promoção consiste num ensaio fotográfico de R$50,00 com 15 fotos editadas e 100% desses recursos serão revertidos para cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade social. Saiba mais nas redes sociais ou através do whatsapp (21)99488-0772.

Essa construção comportamental pulverizada de cidade faz a gente tentar construir símbolos locais que no final das contas não conseguem representar bem o nosso jeito de ser. Brinquei ontem dizendo que a bandeira de São Gonçalo deveria ter uma bisnaga de maionese temperada para dar conta da nossa representação e muita gente acabou rindo disso em tom de identificação ( ler texto aqui ).

E sabe o que é pior? Lembro dessa coisa de representação de cidade todo dia que passo na Praça Luiz Palmier ou se preferir, “Praça do Rodo”. O monumento, construído para representar o “Rodo de São Gonçalo”, acabou virando uma certa piada de tudo que é jeito pela população (e com certa razão). Uma Praça com um monumento que seu entorno não consegue dar conta da vida local. Sem bancos, sem árvores, sem possibilidade de encontro e com um pedaço de ferro gigante no meio.

Já chamaram de tudo, desde um possível relógio do sol até mesmo a possibilidade de ser um pênis gigante. Apesar de um embasamento histórico importante para aquele monumento, seu aspecto físico seguido de um espaço que não agrega as possibilidades do encontro acabam deixando a desejar. Pra quem quiser saber mais sobre os bondes de São Gonçalo, recomendo um artigo de Tafulhar chamado “Bondes: o trilhar do desenvolvimento de São Gonçalo“.

Temos muito ainda para caminhar como cidade. Precisamos parar de tudo em São Gonçalo dar nome de “Palhaço Carequinha” por que apesar do Carequinha ser um dos maiores (se não o maior) representante cultural da cidade, ele já foi nomeado em vários aparelhos públicos. Além disso, precisamos pensar como a cidade agrega valores de encontro para além dos espaços como foi com a reforma da Praça Chico Mendes.

Precisamos também fazer monumentos mais representativos que não sejam construídos até a metade como foi o pórtico na entrada do Shopping São Gonçalo. Precisamos de espaços de conexão que contemplem obras, mas também pessoas. Falo isso de um lugar difícil que é estar no governo, mas ao mesmo tempo, é uma reflexão que extrapola as questões municipais que entra num debate de cidade para os próximos anos, gestões e gonçalenses.

Tirando a reflexão séria, queria falar pra Panisset que ela deve morrer de vergonha quando as pessoas zoam ela por conta desse monumento que publicamente chamam de ferro, mas que nos bastidores chamam de …