Isaque é um daqueles jovens gonçalenses cheios de desejos e sonhos. Nascido em berço humilde, teve que correr três vezes mais pra iniciar seu sonho de ser um grande produtor de vídeos.

Correu tanto que está conseguindo.

Conheci Isaque pela produção do clipe da música Resistência do grupo Originais de São Gonçalo. Lembro que André (Dré Mc) mandou a música e de cara achei a produção foda. Muito tempo que não tinha visto uma produção tão moderna na cidade. A cor chamava atenção, os enquadramentos eram modernos e a finalização era muito cuidadosa.

Clipe em questão:

 

Fui procurar o trabalho da Bozó e Lightning Produções. Vi as fotos, algumas prévias e na hora fiquei com vontade de produzir algo junto. Tentei durante as eleições, mas nem rolou, mas a parceria foi ser fechada durante as olimpíadas.

e então conheci Isaque Abreu!

Isaque projeta um pouco da história de nós, gonçalenses. Circula dentro e fora da cidade buscando oportunidades de realizar seus sonhos e viver daquilo que ama. Passa perrengue de grana, passa aperto com as contas, luta muito para conseguir seus projetos e aos poucos vai avançando nessa sua caminhada.

Não que ele seja mais especial do que os outros, mas ele é um pouco do que eu me via quando tinha 17, 18 anos. É o mesmo que eu via em Lima dois anos atrás, o mesmo que via em Luana 4 anos atrás, o mesmo que eu via em Knust um ano atrás, o mesmo que eu via em Ian um ano atrás e o que a gente vê todo dia na cidade.

Rodrigo Santos, poeta e professor que tenho muito respeito e estou em vacilação de não conseguir tempo para encontrá-lo, fala muito sobre São Gonçalo ser um cemitério de sonhos… e é! Ao mesmo tempo também é terreno fértil para a reinvenção de trajetórias que só a arte, a cultura e as novas tecnologias tem proporcionado.

E o jovem gonçalense através do Isaque foi longe. Longe por que no dia 23 de maio de 2017 montou a primeira gravação de Rap com set de filmagem da história de São Gonçalo.

Câmera.
Cortina.
Luz.
Gravando!

e o Isaque gravou o clipe do Froid, um dos principais do Rap nacional aqui em São Gonçalo, no Mendes Duarte. Ele, que fazia os freelas e fotografava o 3030 em alguns shows, conseguiu enfim criar um divisor na sua carreira que em breve estará no ar.

Romario Regis - Isaque, Froid e LK

É simbólico, mas são avanços. Avanços por que as coisas estão dando muito certo para essa cadeia produtiva da cultura urbana e das novas tecnologias aqui em São Gonçalo.

É avanço econômico? Quase nunca.

O avanço que falo é sobre a identidade e sua relação com seus desejos. Nessa idade, a maioria dos jovens gonçalenses estão começando a trabalhar num lugar que não querem, que não desejam, que não faz eles acordarem com tesão, mas por algum motivo da curva histórica e de pessoas que lutam para que isso seja diferente, tem uma geração que vai conseguir criar suas próprias caminhadas.

Isaque produzindo clipes de Froid, fotografando 3030.
Orochi, Maquiny e Azevedo ganhando o Brasil.
Vinicius Jr. no Real Madrid.
Lima com uma produtora de vídeo focado em esportes.
Reinaldo Dutra circulando com o Teatro.
Hamilton vendendo salada em Recife.
Andressa Marins focada em cortes de cabelos afro.
Carol Pimenta empreendendo bolos de pote.
João Gabriel participando da construção de um partido.
Nathália D’Lira assumindo a responsa do Festival da Trindade.
Lucas Alvarenga na fotografia.

e assim com muitos outros jovens.

São Gonçalo é um país. Tem tudo do mundo. Desde a França representada na Rua Paul Leroux até os desejos que extrapolam as fronteiras que o imaginário da cidade estabeleceu.

Que Isaque continue sua correria. Que essa produção mude a vida dele e ele comece a entrar no mercado que ele merece. Que um dia ele lembre que é preciso cuidar para abrir espaço para os que estão chegando e que nós, gonçalenses, somos batalhadores pra cacete.

Vim falar do Isaque, mas pode ser pra qualquer jovem gonçalense.

Abaixo a última produção dele:

7h da manhã era a hora que começava mais uma aula enquanto eu morria de sono esperando um dos professores.

Desde que Alexandre faleceu, aquela escola se transformou num outro lugar, num lugar completamente distante das boas histórias que aquelas ardósias conheceram.

Passar no Mutuá, ver o Mendes Duarte, o Salgadão e as ruas paralelas me colocam uma lágrima na hora. Acho que todo mundo tem uma ligação especial com sua escola e comigo não é diferente. O que mais incomoda é que a morte de Alexandre, o diretor mais legal da história do mundo, fez com que o CEMD carregasse apenas os fantasmas dos bons tempos e se transformasse num lugar comum.

Estudar no Mendes Duarte era chegar na Escola e ter Bigode abrindo o portão deixando a gente correr rapidinho na padaria ou no salgadão na hora do Recreio sem que ninguém soubesse. Era ter Jonas com a camisa do Vieira Brum falando com aquela voz que só ele tinha. Era tempo de gritar para Pascoal trazer as figurinhas pra gente jogar bafo na hora do recreio. De torcer pra Eliane estar com bom humor pra atender a gente.

Aliais, falando em Recreio, quem nunca recebeu uma pizza com algum desenho de Zé ou com aquele macete que ele tinha de encher o italiano com ketchup e maionese pra gente?

Bons tempos que infelizmente não vão voltar. Ver alguém de lá me deixa feliz e ao mesmo tempo triste. É como se a gente no olhar reconhecesse os códigos da escola, mas depois a gente acaba lembrando que tudo é só memória.

E quanta memória boa! Quantos sorrisos!

Memória do degrau alto do bebedouro, memória da coordenação com Rose sempre sendo uma fofa na hora de dar esporro, memória de Cláudio Junior dando aulas épicas de história, memórias do falecido Chicão dando aula de matemática, memória do Sítio Beija-Flor que era o único passeio que a escola tinha (hahah), memórias da nossa quadra torta e por ai vai.

Nem estou tão velho, mas saudosismo também dói. As vezes quando estou triste e pra baixo, sempre acho que “Manoel” vai vir e me dar um abraço, perguntar o que houve e aconselhar. Bate aquela vontade de ver ele chegando perto com a cabeça e braços balançando e dizendo que “o sinal já tocou” ou perguntar “o que está acontecendo?”.

Quando estou fazendo algo que não consigo superar, bate aquela saudade de Sydney dando dica pra gente passar na recuperação de biologia enquanto a gente tenta ficar pedindo meio ponto. Bate saudade de Herivelto, Renata, Cristina, Kátia, Claudia, Manoelina, Soninha Ana Maria, Djalmir, Margareth, Claudia, Wagner, Fábio e tantos outros professores e profissionais passaram pela escola.

Bate saudade das olimpíadas.
Bate saudade das ovadas fora da escola.
Bate saudade de torcer pro time da escola
Bate saudade de participar do time da escola
Bate saudade de implicar com o Santa Mônica
Bate saudade de rivalizar com o Colégio Paraíso.
Bate saudade de comer aquele hamburguer sem gosto
Bate saudade de zoar Silvana pra ela não cair
Bate saudade de italiano com Grapete do Salgadão
Bate saudade do Hand Fest Dance
Bate saudade das ardósias
Bate saudade de ver os troféus
Bate saudade do short azul
Bate saudade do casaco que nunca tive
Bate saudade de ver as crianças do Mini CEMD
Bate saudade de jogar um passe com tampa de refri
Bate saudade da foto oficial da turma.
Bate saudade do medo de Iara
Bate saudade de cantar com tia Cristina ditando
Bate saudade da grosseria das meninas do 3º de 2005

e como bate saudade.

Um dia, quando eu não estiver mais pela terra, espero poder sentar do lado de Alexandre e dizer que se sei escrever, se passei para uma universidade, se hoje sou feliz com meu trabalho, é porque ele inventou um lugar que me fez feliz durante 12 anos.

Obrigado Mendes Duarte.

Lembro como se fosse hoje o início de tudo, Eu, Luã Gordo, Bruno Carvalho, Daniel Pena, Mayra Mesquita, Evelin Claro, Wesley Martins, Rennan Rebelo, Wanderson Amorin e Tatiana Maia nos reuníamos para montar o que chamamos mais tarde de Associação Jovem Gonçalense, projeto e associação que visava trabalhar com juventude, comunicação e cultura em São Gonçalo.

Romario Regis - Batalha do Tanque
Primeira Reunião da Associação Jovem Gonçalense

A partir dessa reunião, tivemos mais duas outras reuniões. Uma na Igreja Matriz e outra na Praça Zé Garoto que desencadeou a realização da Primeira Edição da Roda Cultural da Ex-Combatente no dia 23 de Setembro de 2011.

O primeiro evento dialogava com o meio ambiente. A proposta naquele dia era, para além da cultura urbana, pensar em maneiras de contribuir para o meio ambiente. Conseguimos algumas mudas com o INEA, apoio da Prefeitura de São Gonçalo que naquela época foram extremamente solícitos com a proposta e tudo correu bem.

Numa riqueza de detalhes para detalhar, o atual Secretário de Cultura do Município hoje, Carlos Ney, liberou o espaço para a realização do evento naquela época, Bruno Carvalho viabilizou as mudas com o INEA, Paula Ivo deixou a gente guardar tudo na casa dela (som e mudas) pois era muita coisa, Pedro Ivo emprestou a câmera para filmar, Lucas Rodrigues que fotografou todo o evento quando aprendia a usar a câmera, Luã Gordo que mobilizou toda a galera para cantar e rimar e eu nos bastidores da arrumação.

A partir dai, voltamos para muitas reuniões. Uma muito significativa rolou no Colubandê, na casa do Dipro. Montamos um seminário de organização da Associação Jovem Gonçalense e a ideia era discutir não só a Roda Cultural de São Gonçalo (ex-combatentes), mas também a capacidade que aquele grupo teria de organizar outras ações na cidade. Esse dia foi importante pois Tigrão e Dipro estavam presentes, pessoas que possuem contribuições significativas para o Hip Hop e  Cultura Urbana gonçalense.

Essa reunião decidiu e consolidou o formato que hoje se entende como Batalha do Tanque. Óbvio que a visibilidade e potência que a Batalha do Tanque se dá por conta da capacidade, trabalho e esforço que Felipe Gaspary hoje dá para o projeto, porém, já naquela época a concepção de ter um evento com batalha de mc’s, shows, atividades públicas já era o DNA do Tanque.

Romario Regis - Batalha do Tanque
2ª Edição da Roda Cultural de São Gonçalo [Batalha do Tanque]
Já sem a proposta do evento temático, a segunda edição aconteceu no dia 14 de outubro de 2011 que geraria o fluxo semanal posterior dos eventos. Nesse, a característica do evento já era basicamente a partir da Cultura Urbana. Muitas das pessoas inicialmente na organização já se afastavam e o projeto ia ganhando um corpo focado no Hip Hop e Dom Negrone, Peralta, Dipro, Mc Grilo (atual Revolução) iam encaminhando a proposta com referências e influências nos movimentos do Geração na Trilha, São Gonçalo in Rap e Turbilhão do Hip Hop.

Em novembro, outro marco do processo de acomodação da Roda Cultural de São Gonçalo em espaços públicos e principalmente como um evento que não iria mais sair da programação local independente do apoio ou não do poder público. O marco em questão era o evento em homenagem ao Dia da Cultura, também apoiado pelo Poder Público através da Marilyn Pires.

Famílias, amigos, namorados ocupavam então a Praça dos Ex-Combatentes à partir das 14h no dia 5 de Novembro de 2011. A organização da Roda naquele período já era basicamente Luã Gordo, Eu, Bruno Carvalho e Wesley Martins  com apoios eventuais de Dipro, Peralta e outros nomes que nem sempre acompanhavam. Nesse dia, além da Batalha de Mc’s e apresentação do Soldados da Pista (Luã Gordo e Mamute no dia), também rolou apresentação teatral. Destaque para o freestyle de Mamute que geral ficou de boca aberta e que certamente inspirou ainda mais nomes como Lucas Moura (LT), Jeffinho, Liink, etc.


O ano de 2011 foi fundamental para que a Batalha do Tanque tivesse crescido tanto. Apesar de vários conflitos, apesar de muita gente não se falar ou ter algum tipo de receio um com o outro, esse processo de construção da Roda Cultural de São Gonçalo crescesse foi incrível. Nos próximos textos vou escrever mais sobre os anos seguintes, sobre os desafios e pessoas que foram fundamentais para esse processo.

Vale lembrar que esse é um ponto de vista meu sobre a história do tanque e outro ponto de vista também é válido. Assim como Gaspary é fundamental para que hoje a Batalha do Tanque seja tão grande, as pessoas que carregaram peso, árvore ou simplesmente passaram pelo evento são tão importantes quanto.

Tenho muito pouco contato com alguns dos nomes que citei no texto, mas independente da nossa relação hoje, fica o agradecimento pois esse evento que surge em 2011 também desdobrou grandes oportunidades para mim nos anos seguintes (que também serão citadas).

Dois anos atrás conheci Luiz Ricardo com ele cantando na frente do NEGEP. Ainda muito tímido, ele cantava Bang Bang da Jessie J. Mandei rapidamente o vídeo para o Jornal o São Gonçalo e não deu outra, geral ficou de boca aberta com a voz daquele menino. Era um tal de “menino do Gradim que canta” pra um lado, “menino do Gradim que canta” pro outro. Geral de boca aberta com tanto talento!

Sou privilegiado! Mesmo sem ter um contato extremamente próximo com o Luiz Ricardo, consigo acompanhar sua carreira com alguma frequência. Depois desse vídeo, ainda auxiliei montando a estrutura de design do lançamento de 4 faixas que ele havia feito, gravei o vídeo dele com o ModestiaParte no Centro Cultural Joaquim Lavoura, fiz  umas fotos bem básicas para ele atualizar o facebook, torci e votei no The Voice Kids para que ele pudesse avançar nas fases seguintes e hoje tive o privilégio de reencontrá-lo no papel de gestor público, apoiando sua ida num CRAS do Município.

São Gonçalo é uma cidade extremamente talentosa. Existe um pensador que não recordo o nome que fala que “onde tem gente, tem talento”. Luiz é um desses talentos que o acaso tratou de expor e dar visibilidade. Artista no jeito de falar, artista na escolha dos repertórios, artista na hora de se vestir, artista na hora de se pentear, artista na hora de chegar e de sair dos lugares.

Que seu exemplo deixe os outros artistas encorajados na sua caminhada. Apesar de todas as dificuldades de viver da produção cultural, esse caminho é possível, é viável e é necessário. Luiz Ricardo abre espaço para outros jovens que surgiram no município, outros jovens que sonham em viver da música e principalmente faz com que nós que somos público tenhamos oportunidades incríveis de ouvir e ouvir e ouvir e ouvir música boa em nossa cidade.

Obrigado Luiz Ricardo. Apesar do pouco contato, é bom ter você por perto.

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