Cultura

No dia internacional, carta para a Dança Gonçalense.

Hoje é o dia de vocês e de várias maneiras me sinto um pouco bailarino ao acompanhar os movimentos que vocês produzem na cidade. Não sei dançar e nem tenho coordenação motora para isso, mas sei ser público de vocês e isso me dá muito prazer.

Me dá prazer saber que uma música, por mais esquecida que esteja, pode ganhar vida novamente no passo de vocês. Me dá prazer saber que sentado em uma cadeira de plástico, descubro que o corpo e o movimento de um bailarino pode me fazer me sentir sentado no maior Teatro do mundo.

Vocês são resistentes. Sócrates falava que a ideia de cidade previa o direito de ser aquilo que quiser e mesmo quase 2500 anos depois vocês são um dos poucos setores da sociedade que lutam todo santo dia para ter o direito de ser aquilo que vocês querem ser.

Falo de um lugar difícil. Ao mesmo tempo que sou um apaixonado por vocês, também tenho que responder para vocês com meu trabalho e gerar o máximo de oportunidades com o mínimo de ferramentas que a gestão pública brasileira possui, mas independente disso, aprendo com vocês a capacidade de adaptação, de criação e principalmente de ser feliz apenas com uma boa música e um bom espelho (quando têm) por perto.

Sabe Dança Gonçalense?! Para além da produção de bailarinos, vocês produzem lindas histórias. Histórias de pessoas que construíram sua personalidade a partir das combinações sociais das academias, histórias de gente que tem tão poucos bens materiais e tantos bens de vida, histórias de gente que precisa de terapia (vocês sabem de quem estou falando) e que encontram na dança uma maneira de ter atendimento psicológico e tantas outras histórias de pessoas que simplesmente não viveriam sem a dança.

Não importa o espaço da academia, o lugar onde vocês ensaiam ou alimentam suas famílias. Não importa se são 500 ou 10 alunos. O importante é que vocês fazem uma revolução silenciosa na nossa cidade. Fazem o público entender a importância de respeitar o palco e o artista, fazem os jovens entenderem a importância de chegar pontualmente nos lugares, fazem as pessoas entenderem que a centralidade da felicidade está nas pessoas e não nos bens, fazem a cidade descobrir que sua capacidade inventiva vai além dos problemas que os jornais insistem em representar como notícia sempre.

Eu imagino o quanto é difícil ser dono de academia, de ser aluno, de ser bailarino e ter desejo de viver da arte. Sei o quanto as pessoas desvalorizam, o quanto as pessoas não entendem a dança como profissão e é a partir dessas “coisas ruins” que eu faço questão de escrever o quanto vocês importam!

Sim, vocês são importantes! Ganhei dezenas de amigos, colegas e pessoas que tenho grande carinho. Aprendi com Angélica que não se pode desistir de lutar por políticas públicas, aprendi com Geisi Nara que desaforo não se leva pra casa, com Cátia Fajardo que é preciso ser discreto na ação, com Pluto de que a cultura Hip Hop vai além das Rodas Culturais, com Anderson Lopes que me apresentou um universo de possibilidades de reconexão social através da dança, com a Bia Barros que humildade e limite do que se acredita não se vende, com Brayan que vale a pena lutar por quem mais precisa, com Emerson Bueno que mantêm aquele sorrisão mesmo ralando 24h por dia, com Felippe Santos que foi buscar o que ama em diversas cidades para viver do que gosta, Com Igor Lopes e Alinne  que fazem a gente lembrar que sociedade na arte é possível, com Jessé que sem tempo se dedica como pode para exercitar o corpo com a dança, com Junior Shady que levou Itaboraí para vários lugares antes inimagináveis, por Kadu Monteiro que utiliza a dança como um tripé de todas as artes, com Lohany que mesmo tão jovem já é cheia de compromissos, com PH Lima que é possível ser bom em algo se esforçando o dobro do possível, com Rothyer que é necessário colocar os sonhos na frente dos problemas, com Thaís Lírio que reinventou a vida e o relacionamento com seu corpo e com a dança, com Karen que faz o seu trabalho independente do que falem, com Simone Rosa que sorrir e se apresentar é um desafio importante, com Thayná Fernandes que desistir não é uma possibilidade, com Will que mesmo treinando sozinho é possível se destacar, com a Thaynara que faz a dança e a fotografia serem um ser só, com a Flávia Perrú que desistir de um desejo de mudar a vida das pessoas não pode parar, com Giselle Dutra que corre dobrado atrás dos desejos e sonhos na dança, do Kaléo que mesmo com uma carreira brilhante voltou para onde tudo começou para ajudar os que estão começando, com Karla Oliveira que faz o pouco virar muito sempre e MAIS UM MONTE DE GENTE QUE EU CONHEÇO que vão ficar chateados por que eu não consegui lembrar quando escrevi, rs.

Que nesse dia da dança vocês sejam felizes dançando, conversando e respirando o que melhor sabem fazer e o que mais amam. Feliz dia dança, o dia é de vocês, mas somos nós que assistimos que ganhamos presentes toda vez que vocês entram no palco.

É pouco para o que vocês merecem, mas de onde estou, faço o possível para gerar o máximo de caminhos com terra fértil.

Dia 29 de Abril – Dia Internacional da Dança.

um comentário

  1. Que não se deve levar desaforo para casa… Foi a melhor
    Lindas e sábias palavras, me emocionei com tanta sensibilidade e carinho com a nossa arte.
    Obrigada pela acolhida e principalmente pelo respeito.
    Grande bj

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