Todos os Gonçalenses são colonizados pelo Rio de Janeiro. Alguns são “escravizados”, outros sofrem fortes influências e alguns são cariocas não-praticantes. Ninguém está livre dessa incorporação.

Pensa nos seus amigos cariocas. Pensou?

Quantas vezes você foi no Rio e Quantas vezes eles vieram em São Gonçalo? Lembre-se sempre que a distância é a mesma, mas os argumentos dos cariocas não colarem aqui são os melhores;

Cafifa pergunta – Por que não vem em São Gonçalo?
Pipa responde – Porque vou passar perrengue na volta.

Italiano pergunta – Por que não vem em São Gonçalo?
Joelho responde – Porque é longe.

Ezequiel pergunta – Por que não vem em São Gonçalo?
Picciani responde – Porque é perigoso.

Íbson pergunta – Por que não vem em São Gonçalo?
Goleiro Bruno – Porque faz o calor de Bangu

Sim, as desculpas são as mais esfarrapadas possíveis. Parece que é molinho esperar o 110 ali na Lapa ou andar até o Menezes Cortes. Parece que é uma delícia ficar 1h esperando o ônibus do Galo Branco na Central agarrado com aqueles caras que ficam burlando o Bilhete Único ali no ponto de ônibus. Parece que é mole andar em Ramos ou ir na Praia de Copacabana sem ter medo de ser assaltado.

Carioca tem uma autoestima da porra. Se fizer pesquisa no Rio sobre a Baía de Guanabara é capaz deles colocarem a culpa em São Gonçalo pela sujeira.

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Imagino as reuniões no período colonial como devia ser a vida de Gonçalo Gonçalves, o colonizador gonçalense:

Filipi I, da Dinastia Habsburgo quando Gonçalo chegava devia olhar pra ele e perguntar…

“Gonçalo, porque estás a atrasar?”

Gonçalo, com cara de obviedade respondia…

“Filipe I, o caminho é demorado. Eu saio da minha sesmaria de cavalo, passo pelo fonsequistão, terras do Príncipe Rodrigo Neves, e depois atravesso a Baía de Guabanara com a CCR Navios de Exploração. É longe!.”

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Admiro muitos lugares, eventos e pessoas que moram ai, mas o Rio de Janeiro é uma espécie de município criado em apartamento se comparar com o resto da região metropolitana do Estado.

Se um carioca pisar em São Gonçalo, Itaboraí ou na Baixada Fluminense, já tem que tomar benzetacil na hora por que não tem imunidade pra complexidade dessas áreas.

Vocês tem Crivella? Nós tem Aparecida.
Vocês tem Picciani? Nós tem nomes que não podem ser citados.
Vocês tem Polícia violenta? Nós nem polícia tem.
Vocês tem Jacob Barata? Nós tem Zé do Boi.
Vocês tem metrô? Nós tem raiva da linha 2 pular pra linha 4.
Vocês tem a ligth? Nós tem a ENEL
Vocês tem a CEDAE? Nós tem o resto dos cocô que vem.
Vocês tem filme legendado? Nós tem tudo dublado.

Saca? Meu problema não é com o Rio. Gosto do Rio, mas o carioca precisa sair do seu cercadinho.

Querem beijar os gonçalenses? Chama pra ir no Arpoador, mas também vem na Zé Garoto.

Querem transar com os gonçalenses. Chama pra ir nesses muquifo de Santa Teresa, mas também vem no Paloma.

Quer ter amigos gonçalenses? Chama pra ir na Lapa, mas também vem na Praça do Gradim.

Quer fazer rolê underground com os gonçalenses? Chama pra andar na madrugada no Rio antigo mas também vem tirar dinheiro nos caixas eletrônicos do posto de gasolina da Trindade.

A gente já é a mão de obra barata de vocês. A gente já tem que ficar achando que trabalhar no Rio é mudar a vida econômica da família. A gente tem que dar até kit de sobrevivência para quando um adolescente vai pela primeira vez no Rio. Dá uma moral pra gente, levanta sua bunda desse rolê eixo zona sul achando que esse é o lugar mais bem frequentado do mundo e vem pra cá, vem conhecer gente nova, lugares novos, ser assaltado por outro tipo de bandido. Inova!

A distância é mesma. A ponte e a baía que nos separa tem a mesma distância para ir e para voltar. Os ônibus são os mesmos. Seja menos.

Tu é amigo de gonçalense mesmo? Tu está apaixonado por algum ou alguma gonçalense? Então larga esse apartamento no Estado chamado Rio de Janeiro e da um rolê pelo bairro inteiro.

Hoje é o dia de vocês e de várias maneiras me sinto um pouco bailarino ao acompanhar os movimentos que vocês produzem na cidade. Não sei dançar e nem tenho coordenação motora para isso, mas sei ser público de vocês e isso me dá muito prazer.

Me dá prazer saber que uma música, por mais esquecida que esteja, pode ganhar vida novamente no passo de vocês. Me dá prazer saber que sentado em uma cadeira de plástico, descubro que o corpo e o movimento de um bailarino pode me fazer me sentir sentado no maior Teatro do mundo.

Vocês são resistentes. Sócrates falava que a ideia de cidade previa o direito de ser aquilo que quiser e mesmo quase 2500 anos depois vocês são um dos poucos setores da sociedade que lutam todo santo dia para ter o direito de ser aquilo que vocês querem ser.

Falo de um lugar difícil. Ao mesmo tempo que sou um apaixonado por vocês, também tenho que responder para vocês com meu trabalho e gerar o máximo de oportunidades com o mínimo de ferramentas que a gestão pública brasileira possui, mas independente disso, aprendo com vocês a capacidade de adaptação, de criação e principalmente de ser feliz apenas com uma boa música e um bom espelho (quando têm) por perto.

Sabe Dança Gonçalense?! Para além da produção de bailarinos, vocês produzem lindas histórias. Histórias de pessoas que construíram sua personalidade a partir das combinações sociais das academias, histórias de gente que tem tão poucos bens materiais e tantos bens de vida, histórias de gente que precisa de terapia (vocês sabem de quem estou falando) e que encontram na dança uma maneira de ter atendimento psicológico e tantas outras histórias de pessoas que simplesmente não viveriam sem a dança.

Não importa o espaço da academia, o lugar onde vocês ensaiam ou alimentam suas famílias. Não importa se são 500 ou 10 alunos. O importante é que vocês fazem uma revolução silenciosa na nossa cidade. Fazem o público entender a importância de respeitar o palco e o artista, fazem os jovens entenderem a importância de chegar pontualmente nos lugares, fazem as pessoas entenderem que a centralidade da felicidade está nas pessoas e não nos bens, fazem a cidade descobrir que sua capacidade inventiva vai além dos problemas que os jornais insistem em representar como notícia sempre.

Eu imagino o quanto é difícil ser dono de academia, de ser aluno, de ser bailarino e ter desejo de viver da arte. Sei o quanto as pessoas desvalorizam, o quanto as pessoas não entendem a dança como profissão e é a partir dessas “coisas ruins” que eu faço questão de escrever o quanto vocês importam!

Sim, vocês são importantes! Ganhei dezenas de amigos, colegas e pessoas que tenho grande carinho. Aprendi com Angélica que não se pode desistir de lutar por políticas públicas, aprendi com Geisi Nara que desaforo não se leva pra casa, com Cátia Fajardo que é preciso ser discreto na ação, com Pluto de que a cultura Hip Hop vai além das Rodas Culturais, com Anderson Lopes que me apresentou um universo de possibilidades de reconexão social através da dança, com a Bia Barros que humildade e limite do que se acredita não se vende, com Brayan que vale a pena lutar por quem mais precisa, com Emerson Bueno que mantêm aquele sorrisão mesmo ralando 24h por dia, com Felippe Santos que foi buscar o que ama em diversas cidades para viver do que gosta, Com Igor Lopes e Alinne  que fazem a gente lembrar que sociedade na arte é possível, com Jessé que sem tempo se dedica como pode para exercitar o corpo com a dança, com Junior Shady que levou Itaboraí para vários lugares antes inimagináveis, por Kadu Monteiro que utiliza a dança como um tripé de todas as artes, com Lohany que mesmo tão jovem já é cheia de compromissos, com PH Lima que é possível ser bom em algo se esforçando o dobro do possível, com Rothyer que é necessário colocar os sonhos na frente dos problemas, com Thaís Lírio que reinventou a vida e o relacionamento com seu corpo e com a dança, com Karen que faz o seu trabalho independente do que falem, com Simone Rosa que sorrir e se apresentar é um desafio importante, com Thayná Fernandes que desistir não é uma possibilidade, com Will que mesmo treinando sozinho é possível se destacar, com a Thaynara que faz a dança e a fotografia serem um ser só, com a Flávia Perrú que desistir de um desejo de mudar a vida das pessoas não pode parar, com Giselle Dutra que corre dobrado atrás dos desejos e sonhos na dança, do Kaléo que mesmo com uma carreira brilhante voltou para onde tudo começou para ajudar os que estão começando, com Karla Oliveira que faz o pouco virar muito sempre e MAIS UM MONTE DE GENTE QUE EU CONHEÇO que vão ficar chateados por que eu não consegui lembrar quando escrevi, rs.

Que nesse dia da dança vocês sejam felizes dançando, conversando e respirando o que melhor sabem fazer e o que mais amam. Feliz dia dança, o dia é de vocês, mas somos nós que assistimos que ganhamos presentes toda vez que vocês entram no palco.

É pouco para o que vocês merecem, mas de onde estou, faço o possível para gerar o máximo de caminhos com terra fértil.

Dia 29 de Abril – Dia Internacional da Dança.

Se você tem mais de 20 anos e menos de 30, você provavelmente conheceu alguém que ia nos encontros de internet no Shopping São Gonçalo. Lembro como se fosse ontem que todo sábado estávamos todos nós, envolvidos com as brigas, flertes, encontros, desencontros e risadas que aquele pedaço de grama na frente do Shopping trazia para nós.

A internet hoje é popular, mas naquela época não. Foi uma geração de transição. Nossos pontos de encontro que eram as esquinas foram virando a busca eterna por promoções numa lan house qualquer. Aos poucos, o Counter Strike e Warcraft iam virando ICQ e MSN. O cheiro de homens, pão velho e mortadela ia dando espaço para o cheiro do perfume das mulheres que também passavam a frequentar as “Lan house’s”.

Bons tempos. Era época de trocar lista de MSN, de pensar na melhor coloração dos nick’s do chat e escolher as melhores playerlist para aparecer no “o que você está assistindo”. Era tempo de entrar e sair do MSN para fazer com que alguém puxasse assunto e começar o desenrolo para o sábado virar point de encontro.

Cada um com seu bonde, com seu tipo de roupa, com suas roupas de marca da feirinha de itaipava, com os perfis I, II, II e IV do orkut com alguma foto de uma câmera digital que não era sua ou no máximo, de uma webcam de baixa resolução.

Estamos ficando velhos. O tempo está passando e cada um foi seguir seu rumo. Uns viraram advogados, uns viraram músicos, uns viraram jornalistas, uns viraram maconheiros, uns viraram bandidos, mas todo mundo virou algo. Foi bom compartilhar e fazer parte de uma geração que descobriu junto o potencial da internet.

As vezes fico pensando do que seria da minha vida sem os encontros. Parte da minha formação, personalidade e sagacidade foi desenvolvida lá. Pensar em estratégias para ser mais popular para entrar nas festas de graça, tentar arrumar uma grana para poder comer meu Mc Donald’s aos sábados, poder ir no cinema a tarde já encaminhando a ida para a grama e tentar entrar em contato com o máximo de pessoas possíveis. Resumindo: todo mundo queria um scrapbook lotado.

Para além de um saudosismo, bate uma saudade de querer saber onde todo mundo está. Queria ver o rosto de cada um novamente e poder ouvir o que aconteceu desde então. Saber dos casais e crianças geradas através do G3, de quem brigou e depois virou amigo, de quem emagreceu, de quem engordou, de quem enriqueceu, de quem foi preso, dos puto, das puta, dos feios, dos bonitos, de todos.

Foi triste deixar de frequentar os encontros e depois não ver mais eles existindo. A grama do Shopping São Gonçalo tem história, mas tanta história que sempre que passo lá, preciso atravessar a rua para relembrar, mesmo que por minutos, de como foi importante para mim fazer parte de uma geração tão potente e inventiva.

Para alguns era baderna, era zoação, era briga, mas para mim foi o momento mais interessante da minha juventude, onde pude conhecer, aceitar e aprender com gente diferente, de tudo que era lugar da cidade e o melhor, fazer amigos que carrego até hoje.

Era do cacete organizar os encontros e as festas. Lembro do período que começamos a tentar colonizar Niterói fazendo encontros no Plaza, Bay Market e até festas em São Francisco. Nossa geração era a geração que ser promoter de choppada era o máximo do legal de tirar onda com cordões e anéis de prata com algum boné de tela da Von Dutch falso.

Quantas vezes passo na rua e lembro dos apelidos das pessoas. Fico andando no ônibus ou em alguma festa e lembro de como a pessoa era e em como está hoje. As maquiagens, os bonés, o jeito de falar, tudo mudou, mas ainda sim, todo mundo ainda se olha e se lembra que já nos vimos em algum lugar pela grama.

Que a gente guarde essas memórias pra sempre.

por Talude
Atual Romario Regis.

Gosto muito de todos os bairros da cidade, mas tenho uma queda em especial pelo Gradim. Foi nele que sai da infância e me transformei em adulto. Talvez não seja o bairro mais famoso ou procurado da cidade, mas sem dúvida é o mais charmoso.

O Gradim é literalmente a porta do Paraíso. Um bairro tranquilo de gente bonita e sorridente. As vezes tem confusão, mas nada que acabe com o brilho dos bons finais de semana cheios de cerveja, churrasco e ócio.

Tem a praça das crianças na parte do parque, tem a praça dos lanches, tem a praça de quem madruga e tem a praça dos bastidores que ninguém ousa revelar. Tem os casais que namoram no escurinho da Vicente Cardoso a pé ou os que namoram de carro na Restinga. Tem os mais ousados ainda que vão lá para a Br, mas ai é ter muita disposição.

No Gradim todo se conhece. Mesmo quem não se fala, já sabe quem namora com quem, quem deve, quem é legal, quem é escroto. Os donos de mercado já sabem no olho se aceitam fiado ou não dos moradores. Aliais, fofoca não é algo isolado no Gradim. Fofoca é premissa para morar aqui. Todo mundo é um fofoqueiro em potencial e por isso convivemos bem. É como se todos soubessem da vida dos outros e ficassem fingindo que nada aconteceu. Basta alguém passar, rolar um Oi e pronto, os cochichos logo começam.
Sabemos quem engravidou quem, quem foi preso, quem brigou, quem ficou rico, quem está desempregado, quem foi pro Uber, quem fugiu, quem foi solto, quem morreu e tudo isso em poucos minutos depois de acontecer. Somos melhores em comunicação do que o Jornal Nacional.

Nosso bairro tem uma rivalidade no futebol, por conta do Campo do Marimbondo e do Campo da Igrejinha. Tem rivalidade no carnaval por conta das duas escolas de samba, tem rivalidade no amor por que todo mundo tem um ou uma amante em potencial no bairro. Que bairro! Entre a paz e a confusão, ele sobrevive com todo mundo crescendo junto.

Falando em Escola de Samba, não podia esquecer do Carnaval do Gradim. Que carnaval senhores! É no carnaval que todo mundo se encontra pelo menos uma vez ao longo da semana. Conseguimos saber quem emagreceu, quem engordou, quem casou, quem tem filho, quem está mais feio ou bonito. Parece que o tempo passa e o carnaval continua o mesmo. Sempre tem o bloco do “O Rei Morreu” que junto dos seus 5 integrantes nunca deixa de passar. Tem a cama elástica que fica na esquina da Basílio Costa. Tem o Churrasco da esquina da João Cândido, tem a festa que nunca acaba mesmo com a casa de shows mudando no final da Capitão João Manoel.

Ah! No Gradim também tem o saudosismo da festa da Primavera, que mesmo sendo fora de período de comemorações, lotava as ruas. Tem a saudade dos bares temáticos de cada time, tem a saudade de quando você ia pra rua e a qualquer momento tinha gente brigando por conta de futebol. Tem a saudade de brincar na rua sem medo de assalto.
Gradim é terra de comprar pão cedinho no mercado Mancebo. Terra de lembrar que na esquina do mercado, na época chamado Galo Branco, tinha um pastel artesanal que virou a CPI dos Caldos. Gradim é terra comprar pão com o padeiro de bicicleta que ninguém sabe o nome, mas todo mundo se diverte com sua simpatia. É terra de vizinho não se gostar, mas viver dando sorriso um pro outro exalando solidariedade pública, mas se mordendo por dentro.

Nosso bairro tem mitos também. Tem o mito de que a Rua dos Portugueses é a rua das mulheres mais bonitas no Bairro. Tem o mito de que toda noite algum x-tudo está aberto a madrugada inteira. Tem o mito de que nosso bairro é o maior celeiro de jogadores de São Gonçalo. Enfim, temos lendas urbanas que invejam os melhores contos da Disney.
Ai de tí Gradim. Que você nunca perca essa graça. Que o tempo passe, a gente envelheça e você continue charmoso como sempre foi. Mesmo com seus problemas, como é bom caminhar por você sabendo que nossas histórias sempre estarão registradas nos asfaltos do bairro.

Saudades da Festa da ATN ou Festa da “TN” como a maioria da galera falava.

A festa da ANT tem essa sigla, mas o nome original é “Arraia do Tio Nonô”. Foi uma festas pública fundada em 1978 e ficou muito conhecida por conta dos balões, muita gente na rua e muita música ao vivo ou dj’s populares. Era uma festa estilo arraiá e que levava MUITA gente pra rua.

Em 1990 a festa mudou de administração e começou a ser organizada pela Associação ATN de Festas Públicas. Na mesma data, os balões foram extintos e a festa mudou o perfil de ocupação de espaço público envolvendo toda a comunidade no entorno do espaço que a festa rolava.

Mas nem vim falar da história dela, vim falar de como ela era foda.

A ATN ficava exatamente embaixo dos braços do Cristo, pelo menos foi assim que conheci. Sempre que meus amigos falavam da ATN, comentavam que “era a festa que ficava na frente do Cristo do Porto da Pedra.”

Muita mulher bonita! Muita zoação! Muita música boa! Muito funk! Muita dança!

Peguei os últimos anos. Peguei a fase final da história da festa, mas todo ano tem algum final de semana como esse que penso “putz, e a festa da ATN?”

Fui lá adolescente, lançava um kolene no cabelo, um cordão de prata falso, um tênis falso da qix e todo o resto composto por roupas da feirinha de itaipava ou da uruguaiana. E lá eu ia buscar alguma outra adolescente, com kolene ou com franjinha de escova ou prancha pra dar uns beijos.

E como eram bons os beijos, os rolês e a diversão. Como era bom ficar de olho nas meninas da vila ali na frente, ver os short’s da bad boy, ouvir o melhor do funk e o melhor daquelas músicas que tocavam todos os anos da década de 90 e dos anos 2000 sempre!

Ah! Não posso esquecer do medo… e como eu tinha medo.

Sempre rolava treta na minha época (naturalmente isso prejudicou muito o evento). A gente que não era de lá, ia só nos primeiros dias por que no último dia sempre alguém morria. Quanto mais perto do final da festa, mais sinistra ela ia ficando.

A medida era mais ou menos assim:

  1. Chegamos na festa.
  2. Compramos Caipifruta.
  3. Ficávamos olhando para os cabelos de kolene e franja da festa.
  4. Pedíamos para alguém apresentar e/ou botar na fita.
  5. Tomávamos veto ou descolávamos uns beijos em alguma rua paralela por que ninguém beijava na festa (hahaha)
  6. Ficávamos falando com os amigos com quem a gente ficou.
  7. Ai surgia a primeira briga (torcíamos para não ser perto da gente)
  8. Íamos embora e esperávamos o dia seguinte
  9. Volte para o tópico 1.

Saudades, a Festa da ATN nunca será esquecida.

Por algum motivo, por alguma curva ideológica e ou de informação, você tem talentos que só você tem. Talvez você não perceba, talvez isso não tenha despertado, mas existe algo nesse mundo que só você sabe fazer e que precisa descobrir.

O que você não sabe até importa e é preciso se esforçar para saber, mas o que realmente é a bússola que te guia é aquilo que tu sabe fazer. Aquilo que sabemos é o conjunto de informações que seu cérebro codificou para resolver as equações da sua vida. Sim, vida. Bem diferente de trabalho.

E as obrigações cotidianas? as obrigações sociais? o jeito “tradicional” de funcionar? Família? Expectativas?

Ai é problema seu.

Na segunda-feira você …

está indo pro trabalho sem vontade ou
está desesperado sem trabalho ou
está de folga por trabalhar no shopping ou
está insatisfeito com sua qualificação ou
está querendo ser demitido ou
está acordado na cama sem nada pra fazer ou
está … (use a criatividade).

Você sai ou fica em casa todo dia fazendo coisas que não são organizadas a partir das suas potências. Sua organização quase que inteira da vida é a partir de obrigações ordinárias que não agregam nenhum valor para as coisas que te dão tesão.

Você faz cursos, pós, faculdade, vai pra escola, faz reciclagem, vê vídeo no youtube e lê sobre assuntos que não formam os seus talentos, mas que apenas dão conta da sua capacidade pessoal de responder as “regras sociais” que vão te colocar como uma “pessoa boa” ou “pessoa ruim”.

Ser uma pessoa boa é dar conta de todas as obrigações sociais que o mundo te pressiona e/ou involuntariamente te obriga. Estar num trabalho (que enobrece), estudar, não faltar, ser pontual, dar conta das questões familiares, das contas, dos amigos, da moral pública te fará uma pessoa “impecável”, mesmo que isso vá tolir aquilo que mais precioso você tem. Dizendo de uma maneira mais objetiva; – você prefere ser infeliz para não frustrar seu próximos.

Você é bom para quem se matando fazendo o que não gosta? Pra TIM? Pra ENEL? Pra sua família? Trabalho é uma obrigação. Lutar para trabalhar com o que se deseja e com aquilo que se tem talento é uma das grandes revoluções que você pode fazer na sua vida.

Trabalho requer obrigação.
Talento requer treinamento.

Pense na centralidade da sua vida a partir do seu talento. Treine todos os dias ao invés de participar de um sistema em que o capital é premissa de sucesso (cobre e tenha dinheiro, mas não seja movido por ele).

Se você tiver um talento, se você tiver uma habilidade especial que só você tem e que só você pode desenvolver, DESENVOLVA. O impacto positivo em escala do seu talento poderá ser mais importante do que as frustrações para quem está por perto. Cabe a você estabelecer quais são os limites.

Quando você quer ser Professor e sua família diz que você precisa ser Arquiteto e mesmo assim você vai ser professor, você não está frustrando sua família, você está fazendo aquilo que melhor poderia ser feito para a partir das suas bússolas. Quando seu namorado ou namorada diz que se você fizer intercâmbio ou se mudar o relacionamento vai acabar quer dizer que o relacionamento pode acabar sim, mas que sua capacidade de catálogo de informações e talentos pode ser potencializada TAMBÉM.

Quando você não tem mais tempo para seus amigos, familiares, companheiro ou companheira por conta de estar focado em desenvolver seus talentos, você não está decepcionando as pessoas perto. Você está fazendo um bem para centenas de outras pessoas que precisam do seu talento.

Essa ideia de que Trabalho enobrece o homem/mulher é CAÔ! Trabalho é obrigação social para você arcar com os desejos e outras obrigações do capital. O que enobrece o homem/mulher é ele acordar e desenvolver aquilo que gosta para poder treinar enquanto deseja viver.

Pensa num jovem de 15 anos chamado Joaquim que começou a trabalhar aos 15 anos em algo que não fará ele ser feliz.

Pensou?

Esse jovem passou todo o resto da vida trabalhando dando orgulho para as obrigações sociais sendo um bom filho, um bom amigo, um bom colega de trabalho, se aposentou, morreu e foi tratado como “ah o Joaquim era tão trabalhador”.

Agora te pergunto…

… qual a chance de Joaquim, começando a trabalhar aos 15 anos, conseguir desenvolver algum talento que não orgulhe as pessoas próximas e sim o mundo ou algum número de pessoas maior do que o núcleo que o conhecia através das suas obrigações?

Somos todos formados pela moral cristã pensando na lógica do “viver a nossa vida para o outro”, “viver nossa vida para fazer o outro feliz”, mas também somos formados pela lógica do capital de “viver a nossa vida para acumular dinheiro”, “viver nossa vida para ter lucro explorando o outro”.

Seu talento, em várias hipóteses, pode ser o equilíbrio de dedicar a sua vida para ser o melhor naquilo que você precisa ser para dar conta de viver para o outro e usar o seu talento para explorar sua capacidade de rendimento ganhando dinheiro (pouco ou muito).

Isso não tem relação com o “nível de prestígio de um trabalho”. Isso pode ser com qualquer trabalho.

Uma pessoa pode ser um pedreiro incrível que tem o mesmo desejo de ser engenheiro ou arquiteto.

Uma pessoa pode ser um fofoqueiro incrível que tem o mesmo desejo para ser pesquisador.

Uma pessoa pode ser dona de uma barraca de cachorro quente que tem o mesmo desejo de ser dona do Mc Donalds.

Desejo por fazer algo não é da classe social. É da lista de códigos criados que nos fazem ter água na boca de dizer nossa função social a partir das nossas virtudes.

Desejo!
Talento!
Potência!

Desenvolver talento é ter que ouvir que “se vendeu”, que “não dá mais bola para o lugar de onde veio”, “não tem tempo para as pessoas”, “não é presente”, etc. Isso frustra as pessoas, deixa elas tristes, mas se você é o melhor no que faz ou sabe o que precisa fazer da sua vida, não desista. Existe um mundo inteiro necessitando de você por mais que sua função social vá ser comprometida.

Tenha uma boa segunda-feira. Frustrar as pessoas próximas nem sempre é um erro.

Pensa numa Ak-47.

Agora pensa numa Ak-47 numa favela.

Uma Ak-47 custa 60 mil reais. R$60.000,00.

O Brasil não fabrica Ak-47, mas mesmo as armas fabricadas no Brasil não podem ser compradas numa loja de conveniência.

ou seja,

Pra uma arma chegar numa favela, é preciso uma caminhada bem longa de muitos envolvidos, participantes e sócios. Não se compra um Fuzil ou uma Pistola na OLX.

Para uma AK-47 chegar numa favela, ela precisa ser importada ilegalmente. Precisa ter alguém que traga num transporte aéreo ou pelo mar e sabemos bem que a Favela não domina o mercado náutico e nem aéreo Brasileiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguém da polícia federal ganhe um dinheiro para as cargas entrarem na fronteira brasileira e circule pelas estradas do País para chegar em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que as polícias estaduais dos Estados que essa carga passe ganhem algum dinheiro.

Para uma Ak-47 chegar numa favela, é preciso que alguma parte do Governo do Estado seja conivente com a chegada de armas numa favela.

Pronto. Chegou a AK-47 e jovens que não possuem nenhuma instrução estão armados com uma arma super potente. Levam a culpa por toda uma cadeia produtiva de tráfico de armas que eles nem devem compreender.

E vai além.

Quando tem uma troca de tiro na favela ou na rua, a culpa não é apenas de quem está com a arma na mão, mas sim de TODA A CADEIA PRODUTIVA que fez a arma chegar na mão daquela pessoa. É tanto culpa de quem dá o tiro até a culpa de quem transporta a munição pelo mar ou aceita o arrego na Blitz numa dessas Br’s ai pelo Brasil.

E não tem só o “bandido atirador” não.

Tem Deputado.
Tem Governador.
Tem a Empresa de Armas.

Tem um monte de gente que “não deve ser citado”.

Um tiro é uma Genki Dama de gente envolvida. Seja você a favor do Estatuto do Desarmamento ou não, seja você a favor de Bandido Bom é bandido Morto ou não, é preciso saber que.

UMA
ARMA
NA
RUA
TEM
DEZENAS
DE
ENVOLVIDOS

Se bandido bom é bandido morto, sua lista precisa aumentar inclusive para os donos das empresas fabricantes de armas que lucram milhares de dólares e reais com essas armas vendidas informalmente.

O policial é o menor responsável dessa cadeia produtiva assim como o bandido que troca tiros de havaianas na favela não sabe de 5% daquilo que está envolvido.

Os culpados são outros e a gente insiste em resumir tudo na Wagner Montesrização de o único culpado é quem atira.

Geral é culpado. Entre quem dá o tiro e quem fabrica a arma, existe tanta gente envolvida que nem The Walking Dead daria conta de criar tanto personagem.

Ontem, na rua, perguntei para uns moleques de 10 anos qual era o time deles.

Imediatamente, responderam atropelando a fala um do outro que torcia para os times da Pain, Red Canids, CNB e falaram os nomes dos atletas como Revolta, Mylon, Kami, Yoda, Brtt.

Nesse momento devem ter três tipos de pessoa lendo;

1 – as que sabem sobre o que estou falando.
2 – as que sabem e que acham idiota.
3 – as que não acham nada por que não sabem.

Pra quem não sabe, esses times são de um jogo chamado LOL. Se trata de um jogo online de estratégia, ação e rpg que 5 jogadores jogam contra outros 5 jogadores.

E por que vim falar disso?

Por que rolou mais uma final do CBLOL e nenhum jogo do Flamengo, Vasco, Palmeiras, Corinthians ou outro time qualquer mobilizou mais gente online do que o LOL. Ainda que esses times estejam começando a disputar esse imaginário, ainda não movem tanto o jovem online como esses times.

A cultura digital mudou o mundo. Já mudou a muito tempo, mas agora é só a consolidação dessas mudanças.

Quando eu jogava Counter Strike e Futebol no mesmo período, nitidamente existia uma prioridade para o futebol, mas isso não é uma regra para essa nova geração. O cenário de e-sports (games esportivos) cresceu muito e os salários, estrutura e tudo mais são mais fortes e com belas premiações.

Acompanho muito esse cenário. Faço algumas contribuições textuais para alguns blogs sobre os bastidores e sobre o mercado do mundo de jogos digitais e estou muito feliz do Brasil estar crescendo nesse segmento.

Apesar do saudosismo imediatamente dizer pra gente que jogos digitais são coisas de Nerd, coisa de gente que não sai, que não faz nada da vida, é preciso reconhecer as novas maneiras de viver, ganhar direito e ser feliz.

Sim, hoje, em 2017, é possível que uma criança opte em ver Red Canids em Recife ao invés de assistir Flamengo e Vasco no Maracanã e isso não é absurdo, é a mudança das praticas esportivas e comportamentais da nova geração.

Sei que esse texto não deve ser do interesse da minha rede de amigos, mas se tem um conselho pra dar é que o mundo mudou e é preciso reconhecer que nem sempre o que a gente acha que é o melhor para a nova geração é o que a gente viveu.